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Identidade sexual e política

Identidade sexual e política
Identidade sexual e política
O respeito à diversidade – diversidade de manifestação, diversidade política, diversidade de gênero – delimita a fronteira que separa o continente democrático dos ermos de barbárie.

De Felipe Eduardo Lázaro Braga, para o NOSSA POLÍTICA (Envie também o seu texto aqui):


O vocabulário LGBT (e Q, I, A, S, P, etc.) é uma generosa máquina de descrever gêneros – recusa as chatices dicotômicas e os bocejos binários com alfabetos e alfabetos de possibilidades, orientações, desejos, visibilidades, autoestimas. Se há um desejo solitário por aí, órfão de uma letra pra chamar de sua, dicionarizaremos mais uma expressão de identidade, e outra, e outra, até que existam tantas expressões quanto há pessoas para reivindicá-las, ou até mais, para os ambiciosos que não admitem um único rótulo. No limite, serão tantas as expressões que nenhuma delas significará coisa alguma, e as pessoas poderão transpirar sua sexualidade, sua visibilidade, sem as obrigações de uma rigidez rotulada.

A diversidade, no entanto, é uma fronteira que não pode ser riscada, cada definição traz consigo um convite à rebeldia: há os gays que rebolam carisma nas franjas de negritude? Claro que há. Assim como há aqueles made in Miami completamente vestidos de boa reputação. Há os que rezam, os que adotam, os que jogam futebol, cursam medicina, cursam moda, há os que votam na direita, os que vencem a final de RuPaul Drag Race em frente ao espelho do quarto, obrigados a esconder a própria beleza da violência e intransigência paterna (a maior vocação da crueldade é sussurrar boas intenções). Diversidade dentro da diversidade, esse é o maior capital político LGBT, a prerrogativa humana de realizar suas escolhas existenciais sem temer o rosnado dos vários coletivismos morais. A liberdade individual de escolha é um marco civilizatório, um patamar de desenvolvimento humano que não afirma esta ou aquela existência particular, mas a pluralidade razoável de inclinações, possibilidades e alternativas de vida.

A demanda LGBT por respeito e igualdade não é um ruído de nicho, uma pauta de minoria, um projeto de vitimização; é, ao contrário, um compromisso ideológico com os mais fundamentais valores da democracia. Conservador, aliás, adora um liberalismo, mas só o liberalismo manco apoiado na muleta econômica – liberdade individual e irrestrita para fazer escolhas financeiras, mas hegemonia moral e autoritária no campo afetivo. O que a tolerância diz a esse conservador semicoerente? Diz o óbvio, nu e sem maquiagem: seja, exista, vá ao culto, case-se, tenha filhos, estude a bíblia, pague escrupulosamente o dízimo, invista no tesouro direto, faça o que quiser, amém; mas a extensão da sua liberdade é, precisamente, a extensão da minha liberdade, e farei, serei e existirei o que bem entender. Essa é a matemática fundamental da cidadania, parcelas idênticas de autonomia e decisão para todos.

Não há, em princípio, qualquer contradição entre a diversidade orgulhosamente festiva, e a família tradicional brasileira, entre a pauta LGBT de respeito equânime, e o exercício de fé neopentecostal, entre a fluidez de gênero e a rigidez religiosa – isto é, não há contradição dentro das fronteiras da democracia, porque democracia só é uma realidade política de fato, se a pluralidade de ideologias, de afetos, de opiniões, compartilhar os espaços de existência pública, sem imposições ou intimidação. O contrário disso é o autoritarismo uníssono, a antidiversidade, o culto devocional que converte maiorias estatísticas em critério religioso de valor (com a benção milionária da aristocracia do dízimo). Numa tal república de pensamento único, o medo executa o que a cegueira legisla, e para o perfeito cidadão de bem muito bem tutelado, só aquela opinião sinônimo de silêncio.

O respeito à diversidade – diversidade de manifestação, diversidade política, diversidade de gênero – delimita a fronteira que separa o continente democrático dos ermos de barbárie: cá a criatividade humana de ser e agir; lá a pilha de cadáveres que a História oferece à intolerância. É exatamente por isso que a bandeira LGBT deve concretizar a política da generosidade e do diálogo, uma militância festiva e bem-humorada que não busca um revanchismo a qualquer preço, sem essa lupa de vasculhar micro-homofobias em cada vírgula de discurso.

As pessoas cometem erros, pedem desculpas, se arrependem: tá tudo bem, a gente se conversa. A humanidade perdeu o direito ao esquecimento, nossas melhores e piores ações estarão gravadas na eternidade online. Uma frase infeliz, uma piada desajustada, não é uma declaração imperdoável de guerra, é apenas um tropeço que todos nós eventualmente cometemos. Todos nós. Não é justo reduzir uma biografia a dez segundos de deslize, dez segundos de desconhecimento.

As redes sociais exercem a sua “Santa Inquisição do Bem” com uma virulência histérica, como se todas as pessoas tivessem a obrigação de decorar a cartilha de boas maneiras da bolha universitária. Esse progressismo talibã vai acabar perdendo a batalha retórica da opinião pública, não para o preconceito e a intolerância, mas para sua própria arrogância iluminada. A cultura LGBT tem muito a oferecer, muito orgulho para transbordar; devemos, portanto, fazer a política do diálogo, e não a antipolítica do grito.

Felipe Eduardo Lázaro Braga é graduado em Ciências Sociais, e mestre em Sociologia pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Estudante de Filosofia na mesma instituição. Escreve sobre arte contemporânea, e trabalho com pesquisa de mercado e opinião.


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