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O desgaste da Globo

O desgaste da Globo
O desgaste da Globo
Programas de auditório com visões adocicadas da vida e pouca coragem na hora de estimular enfrentamentos de ideias. Tardes loteadas com reprises. Faustão aos domingos há 30 anos. 

De Cristina Padiglione e Gustavo Fioratti, na Folha:


Globo se desgastou em vespertinos e novelas e sofre queda de audiência

Novelas com diálogos e enredos que assumem poucos riscos. Programas de auditório com visões adocicadas da vida e pouca coragem na hora de estimular enfrentamentos de ideias. Tardes loteadas com reprises. Faustão aos domingos há 30 anos. E uma grade de programas que permanece quase igual desde a década de 1970.

Tudo em que a TV Globo inova hoje nos horários após as 23h ela esqueceu de fazer no resto da programação.

Com a ascensão de concorrentes de peso no streaming, a derrota em algumas praças e o desempenho abaixo do esperado de alguns programas vespertinos, a rede tenta hoje correr atrás do prejuízo — sob o risco de ver sua hegemonia, ainda inegável, se desgastar com o tempo.

No fim do ano passado a emissora acordou para o nicho que representa o futuro da TV e reviu o formado de sua plataforma de streaming.

Especialmente nas regiões metropolitanas, os serviços de vídeo sob demanda dos canais de TV paga e da Netflix, por exemplo, têm ganhado vasto terreno. A Globo passou a lançar na internet produções mais caras, como aconteceu com “Ilha de Ferro” em novembro. A série ainda não foi para a grade da TV aberta.

Nem mesmo a Copa do Mundo impediu uma leve queda de audiência da emissora. Segundo a Kantar Ibope, o Painel Nacional de Televisão registrou redução de 4% de 2017 para 2018 na faixa das 7h à 0h.

Até então, a Globo vinha recuperando audiência desde 2014, ano em que sofreu um tombo mais dramático. O momento mais baixo da curva foram os 15,1 pontos de média daquele ano, contra os 16,5 até dezembro de 2018 —cada ponto equivale a 711 mil espectadores.

Ainda entre 7h e 0h, o share domiciliar da Globo —percentual de televisores sintonizados— teve queda de 2017 para 2018, oscilando de 36,7% para 35,9%. A Record e o SBT disputam a vice-liderança, com o canal de Silvio Santos um pouco à frente.

Isso é efeito de programas que ganharam popularidade na concorrência. O “The Noite”, talk show comandado por Danilo Gentili no SBT, bateu o “Conversa com Bial” em diversas madrugadas do ano passado.

Com as ultrapassagens do jornalístico Balanço Geral, da Record, exibido no início da tarde, o “Vídeo Show” acabou se despedindo da grade.

O crescimento da audiência da TV paga desde o início dos anos 2000, mesmo com uma redução de marcha nos últimos dois anos, causou a pulverização do público, diz o pesquisador de rádio, TV e internet Daniel Gambaro.

O fim do “Vídeo Show” encerra um tipo de estratégia —a de mostrar bastidores da própria Globo— que resistiu por 30 anos, mas envelheceu.

“Havia um desgaste da marca ‘Vídeo Show’, que faz questionar se a audiência ainda quer gastar tempo com a exibição superficial das celebridades da casa.”

(…)


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