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A morte de João Goulart, segundo Carlos Castello Branco

A morte de João Goulart, segundo Carlos Castello Branco
A morte de João Goulart, segundo Carlos Castello Branco
“Como um peão perdido à procura do caminho de volta ao seu galpão”. Assim o jornalista Carlos Castello Branco descrevia os últimos dias de João Goulart em exílio, na Argentina.

Da autoria do jornalista Carlos Castello Branco, o texto a seguir foi publicado no Jornal do Brasil de 7 de dezembro de 1976, um dia depois da morte de João Goulart, em Mercedes, na Argentina. Nele, Castello Branco fala sobre a tristeza do presidente deposto pelo golpe de 1964, como um peão que ronda o seu galpão:


Como um peão que ronda o seu galpão

Brasília — O Presidente João Goulart, sem condições de voltar ao Brasil, compelido a deixar a Argentina e aconselhado a não permanecer no Uruguai, morreu na madrugada de ontem numa cidade da fronteira, como um peão perdido à procura do caminho de volta ao seu galpão. Em outubro, em Paris, visitando-o no Hotel Claridge, nos Champs Elpsees, onde se hospedava habitualmente há 20 anos, aludiu ele às condições cada vez mais difíceis do seu exílio. “Eu sei viver é por lá, na minha região, no Sul. Se me fecham todas as portas, só me resta comprar um apartamento por aqui. Pelo menos ficarei perto dos meus filhos, que estão estudando em Londres.” Seu ar era de indefinível tristeza, embora aparentasse a paciência e a serenidade que mantinha mesmo nos momentos de maior tensão. Disse-me que voltaria ao Uruguai para acertar seus negócios e depois iria decidir. Contestou que corresse contra ele qualquer processo no Brasil e considerou drástica a reação ao anúncio de que pretendia retornar à sua terra.

O estado de saindo aparentemente não o preocupava. Visitara seu médico em Lyon, que o considerara em condições razoáveis. Estava, contudo, gordo, bastante grisalho e envelhecido. Contou-me seu reencontro com o cunhado Leonel Brizola, em cuja casa no Uruguai entrou inesperadamente numa noite ao saber que sua irmã passava mal de saúde. “Ele a principio não quis conversa, mas enquanto os médicos acudiam a Neusa, ele se aproximou e conversamos a noite toda. Não falamos de politica, mas dos vossos as-suntos pessoais, de família. Ele está tranquilo e acha que a única pressão que se exerce contra ele no momento é a pressão fiscal. Não nos víamos há alguns anos.”

Poucos políticos foram tão cruamente julgados por seus contemporâneos, sobretudo depois que foi deposto, quanto João Goulart. Trás anos antes, estivera com ele no mesmo hotel e no mesmo bar, e ele queria saber de tudo o que eu soubesse sobre o Brasil. Seu interesse era tão vivo e tão minucioso que me pediu que voltasse no dia seguinte para jantar com ele e uni grupo de professores brasileiros que viviam em Paris e, natural-mente, gostariam de ouvir de própria voz notícias do país. Não tinha queixas nem alimentava ilusões quanto a retorno mas sentia-se que estava pronto a participar. Este ano, sua curiosidade persistia mas o tom era outro. Convidou-me a jantar no dia seguinte, mas infelizmente não pude atendê-lo. Como Ministro e como Presidente, sempre me recebeu na casa dele com gentileza e bondade e sempre conversou de maneira aberta, sem jamais recusar qualquer pergunta. O segredo da sua personalidade parecia estar numa certa duplicidade, a propriedade no falar e a indecisão no agir. Neste último encontro, pela primeira vez esboçou uma justificativa da sua ação e disse que seu julgamento será dado pela História.

Aludiu à inflação que, segundo as informações de que dispunha, ultrapassaria este ano a inflação atingida no curso do seu Governo. Disse que não entendia de finanças mas, como Presidente, escolheu para ministro da Fazenda sempre os melhores. O professor San Thiago Dantas, o professor Carvalho Pinto. Havia gente melhor naquela época, de mais conceito? Se eles não resolveram é que as dificuldades talvez não se situas-sem especificamente iza sua esfera de ação, o que o induziu a incrementar a campanha pelas reformas. Seu tom não era reivindicativo. Ele parecia falar em razões finais, como alguém que, tendo vivido a sua vida, aguarda o juízo do tempo e de Deus.

Quando João Goulart estava no exerci-cio da Presidência, um dia encontrei-me com o Senador Magalhães Pinto, na época Governador de Minas, que vinha de uma conversa com o Presidente. Perguntei-lhe como foi a conversa. “Boa.”, disse, “o Jango sempre conversa bem, mas não age depois em consequência”. O Sr Leonel Brizola, que, como se sabe, exerceu sobre o cunhado uma das pressões mais intensas e mais angustiantes, desabafou-se certa vez comigo: “O problema do Jango”, disse, “é que ele é o testemunho passivo de uma luta que se trava em seu íntimo entre duas personalidades inconciliáveis, o herdeiro político de Getúlio Vargas e o maior proprietário rural do Brasil”. As hesitações do Presidente, sua lentidão na tornada de certas decisões, a dubiedade de algumas políticas do seu Governo levavam o cunhado indócil ao paroxismo da indignação.

Como Chefe de Governo, talvez pelas contradições que subiram com ele ao Palácio do Planalto, o Sr João Goulart não se saiu bem. Como político, pressentido e projetado por Getúlio Vargas, cujo instinto o fez fixar-se desde cedo na personalidade nascente do seu jovem conterrâneo, do filho do seu vizinho Vicente Goulart, ele demonstrou habilidade e aptidão. Não é á toa que um homem de escassa formação intelectual corno ele e posto desde o início em conflito com as ciasses dirigentes do pais tenha realizado urna carreira completa, da Deputação estadual à Presidência da República, ainda que, corno seu descobridor, seu guia, seu chefe e seu pai espiritual tenha terminado apeado do Governo. Ele se imaginou um seguidor de Vargas, une pioneiro da revolução social no Brasil e certamente deve ter morrido na expectativa da que a história será com ele mais amena do que os seus contemporâneos.

Carlos Castello Branco


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