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Mourão, o comunista

Mourão, o comunista
Mourão, o comunista
Jair Bolsonaro parecia ter escolhido o vice-presidente dos sonhos. Mas no primeiro mês de governo vai descobrindo que Hamilton Mourão é um ponto de moderação diante das suas extremadas decisões.

Quando o presidente Jair Bolsonaro escolheu como vice o general Hamilton Mourão, os seus seguidores fizeram festa. Mourão é militar, crítico assíduo do petismo, um nome forte dentro do Exército. Durante a campanha, Mourão seguiu os preceitos de Bolsonaro – sobretudo depois da facada – para não deixar a campanha cair no ostracismo.

Em certo momento foi silenciado por dizer coisas que desagradavam à campanha. Numa dessas ocasiões, afirmou que o 13º era uma jabuticaba brasileira (só existe no Brasil). Isso provocou uma polêmica impressionante que mobilizou discussões nas redes sociais.

Mais tarde, eleito, Bolsonaro e Mourão formaram um gabinete de transição onde a distância entre presidente e vice só aumentou. O núcleo de militares do governo, do qual Mourão faz parte, começou a perceber a influência nociva dos filhos de Bolsonaro nas decisões do governo.

Quando explodiu o escândalo envolvendo o ex-assessor Fabrício Queiroz, envolvendo Flávio Bolsonaro, os militares perceberam que não somente a opinião, mas também a proximidade e a influência dos filhos do presidente prejudicavam o governo. Quando esta percepção ficou clara para ambos os lados, criou-se uma rota de colisão.

Como qualquer pessoa que se coloca em contraposição a Bolsonaro, Mourão começou a ser chamado de comunista por aqueles que há pouco tempo o bajulavam. Os apoiadores do presidente nas redes sociais, sempre raivosos, estão vociferando impropérios contra Mourão. Sobretudo depois que o vice se mostrou contrário às ameaças feitas a Jean Wyllys, que abandonou o mandato de deputado e foi embora do país.

No submundo da internet, Mourão é comunista e enganou a todos com o seu discurso de direita. A coisa ficou pior quando Bolsonaro, após passar por delicada cirurgia, resolveu despachar no hospital Albert Einstein, em vez de deixar o comando do país nas mãos de Mourão, assim como fez quando viajou para Davos, no início do mês.

Na verdade, Bolsonaro não despacha. Ele não pode receber muitas pessoas e só assina papeis. Mas não concedeu o comando do país para o vice-presidente. Enquanto Bolsonaro jaz num leito hospitalar, dando canetadas, Mourão concede entrevistas à imprensa internacional. Recentemente fez afagos na imprensa brasileira, diferente do presidente que acusa jornalista todos os dias.

O general se apresenta neste momento como ponto moderador diante insensatez de membros deste governo. Ele passa longe de ser um comunista, mas não diz amém a todas as medidas de Bolsonaro.

Depois do golpe de 2016, Dilma afirmou que nenhum chefe do Executivo (municipal, estadual ou Federal) estaria tranquilo em seu posto, sem que pairasse sobre ele a possibilidade de ser traído. Bolsonaro, um dos artífices da trama burlesca para derrubar a petista do poder se vê agora, em seu lugar, vacilante diante de um vice que vai  se contrapor às suas decisões.

Como o fez hoje (1) ao se referir ao aborto. Nas redes o clima esquenta. Os filhos de Bolsonaro parecem cada vez mais convencidos de que o núcleo duro do governo os querem longe do pai. Parece que o bolsonarismo vai corroer de dentro para fora. Vanitas vanitatum et omnia vanitas.

 

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