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Marighella era negro?

Marighella era negro?
Marighella era negro?
O revolucionário Carlos Marighella era filho de Maria Rita do Nascimento, por sua vez filha e neta de escravos originados dos povos huassá.

Carlos Marighella nasceu em Salvador no dia 05 de dezembro de 1911. Filho do operário e imigrante italiano Augusto Marighella e Maria Rita do Nascimento, negra e filha de escravos, é o que relata o livro 1968: eles só queriam mudar o mundo, da autoria de Regina Zappa e Ernesto Soto.

Sobre a relação entre Augusto e Maria Rita, pais de Marighella, o jornalista e biógrafo do revolucionário afirma que “pouco se lhe dava fosse ela filha de uma negra haussá, vinda da África num navio negreiro, que seu coração não estava a perguntar por nada disso”.

Haussás eram povos negros, islamizados pelos árabes, vindos do Sudão Central, atual norte da Nigéria. Estes chegaram no Brasil no final do século XVIII e início do XIX. A maioria dos haussás foi levada para a Bahia e um pequeno grupo para Pernambuco.

Destes muçulmanos é que se criou a mítica do negro altivo, insolente, insubmisso e revoltoso.  A inconformidade com a escravidão no Brasil fez com que os haussás suscitassem várias revoltas. A maior delas ocorreu na noite do dia 24 e 25 de janeiro de 1835 na Bahia, com mil e quinhentos negros.

Sobre a mãe de Marighella, o jornalista Mário Magalhães dá mais pistas sobre a sua ascendência, em ‘Marighella: O guerrilheiro que incendiou o mundo‘:

O passado de Maria Rita, nascida com a Abolição, era um mistério. Mais que discreta, ela dava mostras de que as lembranças a incomodavam. Quando as evocava, murmurava fragmentos. Dizia, ao se abespinhar com a bagunça das crias: “Escapei da escravidão, mas virei escrava de vocês.” Ela contava que sua mãe, Maria Especiosa dos Santos, fora escrava. Calava sobre o pai, Jesuíno dos Santos. Já adulto, Carlinhos reivindicaria em prosa e poesia a condição de neto de escravos haussás. Ele e seus irmãos ignoravam o destino dos avós.

Quem vai ao cerne da questão sobre a identidade de Marighella é o antropólogo, poeta, ensaísta e historiador Antônio Risério. Em ‘Uma história da cidade da Bahia‘ ele é categórico ao afirmar que grande parte dos comunistas da Bahia eram mulatos, negromestiços:

Grande parte dos comunistas da Bahia, aliás, era de mulatos. De negromestiços. A exemplo dos já citados Carlos Marighella, Édison Carneiro e Fernando Sant’Anna. E dificilmente poderiam negar o seu próprio estatuto mestiço. Tiveram, pelo contrário, de encarar a sua própria situação socioantropológica. Mesmo porque não eram seres livrescos, enfurnados em gabinetes, mas pessoas que circulavam pelas ruas, ao ar livre, vivenciando com intensidade a Cidade da Bahia e suas manifestações populares de cultura. O mestiço Carlos Marighella, de ascendência ítalo-haussá, por exemplo, não poderia deixar de se impregnar por essas práticas, do Candomblé à culinária e da capoeira ao samba. Seus poemas falam do cais do porto, de Salvador contemplada de um saveiro, da escravidão, da capoeira, de Iemanjá. Ele fora criado como um moleque das ruas, apreciando o carnaval e as rodas de samba. O caruru dos ibêjis era um preceito em sua casa, feito por sua mãe Maria Rita. E vêm daí a sensibilidade e o interesse de Marighella pela mestiçagem e pelo sincretismo. 

Portanto, se Carlos Marighella era filho de uma negra, neto de escravos, vivia a identidade e reconhecia a cultura dos seus antepassados, é possível aferir que ele também era negro, ainda que não demonstrado no tom da sua pele. Fim de papo.

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