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Dom Pedro Casaldáliga, 91 anos do poeta, bispo e defensor da dignidade humana

Dom Pedro Casaldáliga, 91 anos do poeta, bispo e defensor da dignidade humana
Dom Pedro Casaldáliga, 91 anos do poeta, bispo e defensor da dignidade humana
Adepto da teologia da libertação adotou como lema para sua atividade pastoral: “Nada possuir, nada carregar, nada pedir, nada calar e, sobretudo, nada matar”.

“Encostar no bispo de São Félix do Araguaia é como encostar no papa”. A frase é do Papa Paulo VI ao rebater as críticas contra Dom Pedro Casaldáliga, um eterno defensor das causas que dão sentido a sua vida.

Nascido na Catalunha, Espanha, no dia 16 de fevereiro de 1928, Dom Pedro Casaldáliga completou ontem (16) 91 anos. Chegado ao nosso país em 1968 como missionário, o Papa Paulo VI o nomeou em 1971 como primeiro bispo da Prelazia de São Félix do Araguaiano Mato Grosso, naquela época uma região com um alto grau de analfabetismo, marginalização social e latifúndios, o que significava pobreza e injustiça para muitos e privilégios para poucos.

Nomeado administrador apostólico da Prelazia de São Félix do Araguaia no dia 27 de abril de 1970. O Papa Paulo VI o nomeou bispo prelado de São Félix do Araguaia (Mato Grosso), no dia 27 de agosto de 1971. Sua ordenação episcopal deu-se a 23 de outubro de 1971, pelas mãos de Dom Fernando Gomes dos Santos, Arcebispo de Goiânia e de Dom Tomás Balduíno, OP e Dom Juvenal Roriz, CSSR.

Dom Pedro Casaldáliga, 91 anos do poeta, bispo e defensor da dignidade humana

Adepto da teologia da libertação adotou como lema para sua atividade pastoral: “Nada possuir, nada carregar, nada pedir, nada calar e, sobretudo, nada matar”.

Poeta, profeta e místico, autor de várias obras poéticas, teológica, espiritual publicadas no Brasil e em vários países. E outros tantos livros escritos sobres suas obras e poemas.

Em seu primeiro ano de episcopado escreve o manifesto, a primeira carta pastoral: “Uma Igreja da Amazônia em conflito com o latifúndio e a marginalização social” (1971), denunciando o trabalho escravo na região, tornando-se uma referência para os movimentos de oposição à ditadura.

Sua postura incomodou os fazendeiros, o Governo militar e até bispos brasileiros e o vaticano. Um núncio e um arcebispo recomendaram que fosse expulso da Igreja (Dom Carmine Rocco e Dom Geraldo Sigaud) por ser “subversivo”.

Por cinco vezes, durante a ditadura militar, foi alvo de processos de expulsão do Brasil, e Dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo, saiu em sua defesa.

Foi preso, presenciou a tortura e o assassinato, foi alvo de inúmeras ameaças de morte. A mais grave, em 12 de outubro de 1976, ocorreu no povoado de Ribeirão Bonito (Mato Grosso). Ao ser informado que duas mulheres estavam sendo torturadas na delegacia local, dirigiu-se até lá acompanhado do padre jesuíta João Bosco Penido Burnier. Após forte discussão com os policiais, o padre Burnier ameaçou denunciá-los às autoridades em Cuiabá, sendo então agredido com um soco, uma coronhada e, em seguida, alvejado com um tiro na nuca. Após a missa de sétimo dia, a população seguiu em procissão até a porta da delegacia, libertando os presos e destruindo o prédio.

Em meados dos anos 80, estreita os laços de solidariedade com a América Central, apoiando a revolução sandinista da Nicarágua e as forças de oposição em El Salvador, Guatemala, Honduras e Costa Rica. Dizia assim no livro: Nicarágua: Combate e Profecia. “Quiçá eu deva ir à Nicarágua, para me unir também a essa vigília de Miguel D’Escoto. Com o patriarca Méndez Arceo, com Pérez Esquivel, com outros amigos solidários. A insensibilidade, as escusas ideologias e a assepsia eclesiástica neutraliza nosso amor e nosso testemunho… “Em poucas horas despacho meu passaporte, adormecido desde a data de minha chegado ao Brasil, há já 17 anos. Ser bispo e ser tido como mais ou menos revolucionário traz ainda seus privilégios….”. “A 27 de julho de 1985 publiquei um comunicado com uma lista dos 23 bispo, dois pastores evangélicos e mais de 200 entidades e personalidades que, a um simples convite, quiseram aderir a meus gesto de solidariedade com a vigília do Pe. D’Escoto”. “Como latino-americano de adoção e como cristão bispo, em nome da Igreja de São Félix do Araguaia-MT, e com a delegação dos irmãos bispos e suas igrejas, dos irmãos evangélicos e dos organismos e personalidades,… vou à Nicarágua para me unir em oração ao jejum… e tensa vigília de seu povo.”

“É, no meu entender, um gesto evangélico. Pela Paz, pela não intervenção na Nicarágua e na América Central; pela autodeterminação desses povos. Para sacudir a consciência do Primeiro Mundo diante do drama e dos direitos espezinhados da América Central e de todo o Terceiro Mundo. Para colaborar na corresponsabilidade na credibilidade da Igreja de Jesus, nessa martirizada América Central e em toda a América Latina”.

“Ouro e prata não tenho” – poderia dizer, com Pedro e João; nem armas, nem diplomacia, nem poder. “O que tenho, isso vo-lo dou”: a oração de minha fé cristã, minha paixão latino-americana, a inquebrantável esperança na Libertação do Reino e, se for preciso, com tantos outros que nos precederam, a minha própria vida. “Em nome de Jesus de Nazaré: Nicarágua, América Central, América Latina, levantai-vos, vós mesmas, sem intervenções, e caminhai ao ar da Liberdade Nova!”.

Seu amor à liberdade inspirou sua luta contra a centralização do governo da Igreja, pois considerava que a visão de Roma era apenas uma a mais entre as várias possíveis, que a Igreja deveria ser uma comunhão de igrejas. Achava que se deveria falar da Igreja que está em São Félix do Araguaia, assim como se fala da Igreja que está em Roma, pois unidade não tem que ser sinônimo de centralização e sim de descentralização.

Fonte: Comunidades Eclesiais de Base do Brasil

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