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Polícia Federal não colaborou com a prisão de Battisti

Polícia Federal não colaborou com a prisão de Battisti
Polícia Federal não colaborou com a prisão de Battisti
Três integrantes da polícia boliviana em Santa Cruz de La Sierra que estiveram à frente do caso disseram nesta terça-feira (15) que trabalharam em cooperação só com a polícia italiana.

Da Folha:


Polícia boliviana descarta atuação brasileira em captura de Battisti

“Made in Bolívia” é a expressão que membros da operação de busca e prisão de Cesare Battisti no país vizinho estão usando para descrever a caçada ao italiano em terras bolivianas — que não teve nenhuma participação da Polícia Federal brasileira, segundo autoridades locais ouvidas pela Folha.

Três integrantes da polícia boliviana em Santa Cruz de La Sierra que estiveram à frente do caso disseram nesta terça-feira (15) que trabalharam em cooperação só com a polícia italiana, que compartilhou informações dando conta de que Battisti estava no país e depois forneceu detalhes para ajudar na procura.

Do Brasil não houve cooperação em nada nessas etapas, segundo os policiais, que falaram sob condição de anonimato por dizerem temer represálias do governo local caso suas manifestações prejudiquem relações do país.

Já a Polícia Federal de Brasília vem dizendo desde sábado que colaborou com a prisão.

O trabalho, de acordo com os bolivianos, começou com uma notificação enviada em 18 de dezembro pela Interpol a todos os países avisando, com base em alerta da Itália, que possivelmente o foragido estava na Bolívia.

Os membros da Interpol no país iniciaram o rastreamento pela fronteira com o Brasil e descobriram que Battisti havia entrado ilegalmente em 16 de novembro pela fronteira de Cáceres (MT) com o município boliviano de San Matías, no departamento de Santa Cruz.

Ele ingressou no país por terra, em uma caminhonete dirigida por um boliviano, de acordo com a investigação. A polícia local manterá a investigação sobre o caso para confirmar a identidade desse ajudante, que, pelas pistas, foi quem colaborou para que Battisti permanecesse no país. Também é considerada a possibilidade de participação de outros bolivianos e brasileiros no plano.

Detalhes sobre o caso são mantidos em sigilo.

“Aparentemente, é alguém que tem uma inclinação a cometer um tipo específico de delito, o de ‘estafa’ [enganar alguém para causar prejuízo patrimonial e lucrar]”, disse à Folha o comandante da polícia em Santa Cruz, coronel Alfonso Siles.

Com a confirmação de que o procurado estava no país (e o faro de que Santa Cruz poderia ser seu destino, por ser uma localidade mais populosa e, por isso, melhor para se esconder), policiais intensificaram o trabalho nas ruas: perguntaram sobre ele em hotéis e restaurantes de beira de estrada, assistiram a imagens de câmera de segurança e consultaram farmácias e hospitais (Battisti tem hepatite e poderia buscar tratamento).

As pistas eram promissoras para os investigadores, que se animaram ainda mais com a chegada de três policiais da Itália a Santa Cruz, dias depois. Os europeus garantiram ter indícios de que quem tanto procuravam, descrito por eles como um bandido muito perigoso, estava mesmo na cidade onde acabaria preso no sábado (12).

A equipe, que passou a acompanhar o trabalho, acrescentou elementos para facilitar a busca. Informou, como contam os bolivianos, que Battisti possivelmente frequentaria restaurantes ou bares para comer pizza e beber cerveja. Exibiu fotos do foragido e simulações de como ele poderia se disfarçar, a exemplo das montagens que a PF brasileira divulgou em meados de dezembro.

Os bolivianos dizem que monitoraram também telefones de um círculo de pessoas do país que poderiam estar dando suporte a Battisti. O cruzamento dos dados das ligações (como duração e frequência) com a localização dos aparelhos foi decisivo para o avanço.

De pista em pista, os agentes chegaram a uma pensão em Santa Cruz onde Battisti se hospedou —mas ele já não estava mais lá. O italiano entrou na pousada simples de uma rua do subúrbio no mesmo dia em que atravessou a fronteira, 16 de novembro, à noite. Saiu em 5 de dezembro.

Colheram com o proprietário do local, Enrique Peralta, 58, detalhes preciosos. Souberam que Battisti vinha usando, sim, bigode e cavanhaque, como já sabiam, mas que os pelos não estavam mais brancos (ele tinha pintado). Imagens do circuito interno mostraram ainda que ele estava mais magro do que se imaginava.

A prisão, relatam os bolivianos, foi uma consequência: naquele sábado havia vários carros e policiais (ao menos 20 homens) a pé no entorno da via onde finalmente o acharam, em uma avenida da região central distante dez minutos de carro da pensão onde se abrigou até dias antes.

Ao falar do feito, os membros da Interpol no país exibem certo orgulho. Negam que um dos policiais tenha feito dois disparos para o alto durante a captura, como disseram à Folha um dia antes duas testemunhas do episódio. Segundo a corporação, suas regras só aconselham gestos do tipo caso haja resistência ou ameaça aos agentes, o que não ocorreu.

De acordo com os policiais, Battisti estava tranquilo e tinha forte cheiro de álcool no corpo. Da calçada da escola onde foi pego por volta das 18h30, com o dia ainda claro, o fugitivo foi levado para a Interpol, que ocupa um imóvel pequeno nas imediações.

Enquanto era transportado, pediu que os agentes bolivianos lhe comprassem uma cerveja. Eles dizem que o pedido foi negado e que lhe deram comida quando chegaram. Battisti algum tempo depois dormiu em uma poltrona. Pernoitou ali.

Na memória deles está também, como contam, o momento em que os policiais italianos que estavam na cidade enxergaram o conterrâneo preso. As emoções foram da incredulidade à alegria, com gritos de comemoração, riso e até lágrimas.

Houve também muitos agradecimentos aos bolivianos, como dizem os próprios. Pela narrativa deles, só então o Brasil entraria em cena na história, tentando fazer com que o capturado passasse pelo país para ser extraditado.

Um grupo de 20 profissionais da Interpol em Santa Cruz (oficiais da polícia boliviana que são cedidos para a polícia internacional) esteve envolvido no caso. Seis investigadores atuaram na linha de frente, sob as ordens do comandante Paúl Saavedra e do subcomandante Oliver Meneses.

Os integrantes que conversaram com a Folha conduziram o italiano até o avião que o transportou para Roma, no domingo (13). Dizem que foi o momento em que Battisti mais demonstrou fragilidade: olhou fixamente para a aeronave e levou as mãos ao rosto, com os olhos marejados.

PF reivindica participação
A Polícia Federal de Brasília vem dizendo desde sábado que colaborou com a prisão, diferentemente do que foi dito à reportagem nesta terça na Bolívia. Segundo essas informações, um trabalho de inteligência, em dezembro, teria identificado viagens de pessoas próximas a Battisti para Santa Cruz de La Sierra.

Depois disso, uma outra diligência teria sido realizada para tentar saber se o italiano estava mesmo na cidade. Todas essas informações teriam sido repassadas para a polícia da Bolívia.

Em entrevista na noite desta terça (15) à Globo News, o ministro da Justiça, Sergio Moro, afirmou que gostaria que Battisti tivesse vindo primeiro para o Brasil antes de seguir para a Itália –depois de capturado na Bolívia, a polícia italiana optou por enviá-lo diretamente para Roma, onde chegou na manhã de segunda (14).

“Seria uma forma de o Brasil demonstrar de uma forma clara que o país não seria refúgio para criminosos”, completou.

O ministro disse ainda Brasil não deveria ter concedido asilo político ao terrorista italiano. “O Brasil cometeu um erro em conceder asilo ao Battisti”, afirmou.

Em 2009, o então ministro da Justiça Tarso Genro atendeu a um pedido da defesa do italiano, que estava preso no Distrito Federal desde 2007, e concedeu a ele asilo político. Ex-militante de esquerda, Battisti foi condenado na Itália por quatro assassinatos no final da década de 1970 —ele se diz inocente e alvo de perseguição pelo governo italiano.

A decisão de Genro foi derrubada ainda em 2009 pelo STF (Supremo Tribunal Federal), que considerou que os crimes cometidos por Battisti na Itália foram comuns, e não políticos. Mas a corte deixou a palavra final para o ex-presidente Lula, que em seu último dia de mandato garantiu a permanência de Battisti no Brasil.


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