Nossa Política

O Brasil elegeu um meme-presidente

O Brasil elegeu um meme-presidente
No pior, Bolsonaro vai se levar a sério, e liderar a nação com seu traquejo de WhatsApp e suas políticas públicas terra-planistas, num caminho de avanços e progressos que nos levará diretamente para 50 anos atrás.

De *Felipe Eduardo Lázaro Braga, para o NOSSA POLÍTICA:


Bolsonaro do tamanho de um Daciolo

O nano-fenômeno da internet brasileira em 2018 foi o Cabo Daciolo. Todo mundo se assustou quando a TV Bandeirantes anunciou a participação desse militar de baixa patente no primeiro debate presidencial, o provável candidato a Levy Fidelix daquele pleito – insignificante do ponto de vista eleitoral, entraria na cota das candidaturas folclóricas, aquelas que, a cada quatro anos, avacalham nosso esforço de democracia.

Claramente despreparado para a tarefa, Daciolo gaguejou bobagens conspiratórias com insuperável estridência carioca, despejando versículos bíblicos para socorrer sua evidente falta de traquejo. O sujeito era, apenas e tão somente, um aborrecimento imposto pela discutível lei eleitoral, uma pausa de irrelevância em meio a assuntos verdadeiramente urgentes.

A certa altura do debate, porém, o cabo tropeçou, por pura sorte, na senha de celebridade que a internet costuma venerar, uma senha enigmática com cinco letras: URSAL.

No dia seguinte, Cabo Daciolo era mais que um simples candidato à presidência do Brasil; Daciolo era um meme. Nos debates seguintes, a paródia de presidenciável representou deliciosamente bem seu simpático papel de ridículo, numa admirável demonstração de inteligência diante das oportunidades que a vida esconde aqui e ali. Daciolo virou uma espécie de Gretchen da política.

O Brasil, porém, jamais elegeria alguém como Cabo Daciolo para a presidência, um sujeito completamente despreparado para a tarefa, incapaz de responder às demandas mais sensíveis do país. Nós elegemos, ao invés disso, Jair Bolsonaro. Um completamente diferente do outro, exceto pelas inúmeras coincidências: ambos são péssimos oradores com carreira militar; ambos são entusiastas de toda histeria conspiratória online, entre ideologias de gênero, marxismos culturais, foros de São Paulo; ambos possuem conhecimento quase nulo sobre economia e gestão pública; ambos cumpriram carreira legislativa com inexpressiva taxa de aprovação de projetos; ambos cumpriram carreira muito bem sucedida estampando memes de WhatsApp.

Agora o meme eleito precisa resolver o abismo da previdência, reverter o escandaloso déficit primário, desarticular os sucessivos ataques do crime organizado, estimular as taxas decepcionantes de crescimento, modernizar os protocolos de fiscalização de barragens, etc, etc, etc.

O “discurso” de Bolsonaro em Davos demonstrou o embaraço do nosso meme-presidente em abordar a agenda econômica da nação. Some-se a isso os diversos recuos e amadorismos na gestão da máquina pública, os escândalos cada vez mais desconcertantes do filho Flávio, a caricatura ministerial que os discípulos de Olavo de Carvalho representam, o impacto internacional da flexibilização das normas ambientais, e temos uma gestão que está derretendo seu capital político numa velocidade inédita.

No melhor dos mundos, a ficha do presidente cai, ele reconhece seu próprio despreparo para o cargo, e aceita ser o testa de ferro do Paulo Guedes durante as décadas e décadas que esses quatro anos durarão. No pior, Bolsonaro vai se levar a sério, e liderar a nação com seu traquejo de WhatsApp e suas políticas públicas terra-planistas, num caminho de avanços e progressos que nos levará diretamente para 50 anos atrás.

Qualquer que seja a alternativa, o fato é que elegemos um meme para o mais importante cargo da república, alguém com a envergadura política e destreza ideológica do Cabo Daciolo. Só isso já exige que a democracia deite urgentemente no divã.

Felipe Eduardo Lázaro Braga é bacharel em ciências sociais pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e Mestrando em Sociologia na mesma instituição. Trabalha como colaborador do Programa Justiça Sem Muros do Instituto Terra, Trabalho e Cidadania- ITTC.


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