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O encontro entre Steve Bannon e Olavo de Carvalho

O encontro entre Steve Bannon e Olavo de Carvalho
Bannon integrou o conselho da Cambridge Analytica, a consultoria acusada de acessar e usar indevidamente dados de milhares de usuários do Facebook para disseminar mensagens que ajudaram Trump a se eleger em 2016.

O Estadão informa que o ex-estrategista de Donald Trump, Steve Bannon, abriu as portas para Olavo de Carvalho e os seus pupilos:


“Aqui somos totalmente informais”, avisou Steve Bannon sentado na ponta da mesa de jantar, enquanto pelo menos cinco funcionários vestidos de preto serviam água e vinho aos presentes e substituíam os pratos de salada pelo menu principal. O convidado de honra do jantar oferecido pelo ex-estrategista de Donald Trump na última sexta-feira à noite, em Washington, era o brasileiro Olavo de Carvalho. Os dois se conheceram um dia antes, em Virgínia, quando o americano decidiu visitar aquele que dá suporte ideológico ao governo de Jair Bolsonaro, do qual é um entusiasta.

Curioso sobre o Brasil, Bannon abriu as portas da “embaixada”, como chama a casa em que vive numa rua atrás da Suprema Corte americana a doze convidados. A maior parte era acompanhantes do próprio filósofo. Ele aproveitou que Olavo de Carvalho, que mora a cerca de três horas dali, já estava na capital dos EUA, convidado por integrantes do Departamento de Estado americano para uma conversa “off the records” durante a tarde de sexta.

O grupo de Olavo se mostrava entusiasmado por ter sido recebido no sétimo andar do Departamento de Estado, considerado o das altas autoridades da diplomacia americana. Segundo eles, os americanos concordaram “genuinamente” com o que o filósofo falou. Bannon disse que isso era um sinal de mudança, pois o time de América Latina do Departamento de Estado, durante a administração Obama, era o setor do governo mais “tolerante” com o “marxismo cultural” – a expressão usada por alunos de Olavo de Carvalho.

A aproximação com Olavo já era ensaiada por Bannon há alguns meses, desde que ele se encontrou com o deputado Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, ainda no período de campanha eleitoral. Steve Bannon esteve por trás da estratégia de campanha de Trump e retórica nacionalista que ajudou o republicano a chegar à Casa Branca. Nos últimos dois anos, ele tem fomentado líderes e movimentos nacionalistas e de populismo de direita pelo mundo.

O americano tece elogios ao vice-premiê da Itália e ministro do Interior, Matteo Salvini, e ao primeiro-ministro da Hungia, Viktor Orban, faces do novo populismo nacionalista europeu, ambos acusados de xenofobia. Apesar de não ter trabalhado na campanha de Bolsonaro, o estrategista americano não esconde o entusiasmo com o presidente brasileiro. Bannon também integrou o conselho da Cambridge Analytica, a consultoria acusada de acessar e usar indevidamente dados de milhares de usuários do Facebook para disseminar mensagens que ajudaram Trump a se eleger em 2016.

No jantar, Bannon levanta perguntas, como se entrevistasse Olavo de Carvalho. O americano quer saber dos rumos do governo Bolsonaro e transparece preocupação com o quanto o “cara de Chicago” pode atrapalhar o avanço de uma agenda nacionalista no País. O “cara de Chicago” é o ministro da Economia, Paulo Guedes.

Os planos de privatização de Guedes, que é oriundo da escola neoliberal do Departamento de Economia da Universidade de Chicago, vão de encontro a pontos defendidos por Bannon. Uma das fricções é a relação do Brasil com a China, criticada abertamente pelo filósofo brasileiro e por Bolsonaro. O presidente já defendeu em alguns momentos a tese de que os chineses estão “comprando o Brasil”. A China também foi assunto do grupo de Olavo no Departamento de Estado americano.

Para falar sobre o Brasil, Olavo de Carvalho se reveza na fala com Gerald Brant, executivo do mercado financeiro em Nova York, responsável pela ponte com Bannon. Brant diz, como alguém que atua no setor, que a Bolsa de Valores tem reagido bem ao governo eleito: “O mercado ama o Bolsonaro”.

Bannon rebate: “O mercado financeiro ama o capitão Bolsonaro, mas eles amam mais a Escola de Chicago”, e pergunta se Olavo conseguiria exercer influência sobre o ministro da Economia. O filósofo faz sinal negativo com a cabeça.

Ao ouvir que Bolsonaro é um patriota e saber do slogan de governo, “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, Bannon avalia: “Eu amei isso, amei isso”.

Influência. Olavo de Carvalho, que rejeita os rótulos de “ideólogo” ou “guru” do governo Bolsonaro, mostra no jantar no jantar a interlocução que tem com o novo governo e escuta quieto quando um de seus filhos ou Gerald Brant falam sobre os cargos no governo federal ocupados por “amigos” ou ex-discípulos do filósofo. Entre eles, o do ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo. “Ele é um sonho que se tornou realidade”, define Brant, ao explicar para Bannon que o ministro vê Trump como um ponto de “salvação” do Ocidente.

Araújo é colocado por Gerald Brant como parte do quarto pilar do governo Bolsonaro: o ideológico, no qual estão também Olavo, os filhos do presidente e o próprio presidente. Os outros três pilares são o econômico, capitaneado por Guedes; o dos militares; e o político, com o ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni.

Eles falam sobre pontos de divergência dentro do governo ao pilar ideológico. O problema, dizem no jantar, é a imprensa, que “tenta criar intriga todos os dias”.

Mídia. Bannon já esteve à frente do Breitbart News, um site considerado a voz da ultradireita americana, e critica a imprensa tradicional. Ele não pergunta como é a cobertura jornalística feita no Brasil antes de partir do pressuposto de que a mídia é contra Bolsonaro, e questiona: “É uma questão de ideologia ou é porque vende mais jornal?”

Eles emendam a conversa sobre os “riscos” da chegada da CNN ao Brasil. Nos EUA, o canal é crítico a Trump. Bannon é cético sobre o canal ter apenas licenciado o uso da marca sem aplicar diretrizes da CNN americana. Para o ex-estrategista de Trump, a ida ao Brasil é uma tentativa de conter Bolsonaro. Olavo pondera que Bolsonaro pode se decepcionar com a CNN, indicando que o presidente não vê no novo canal uma ameaça.

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