Blog do Mailson Ramos

Campeão e rebaixado

 

Campeão e rebaixado

Campeão e rebaixado

O Palmeiras foi rebaixado no dia em que levantou a taça; a taça de campeão brasileiro foi entregue ao capitão do time de origem imigrante por um xenófobo.

Nunca senti tanta vergonha do Palmeiras como neste domingo (3). No dia 17 de novembro de 2002, no Barradão, em Salvador, o Palmeiras perderia para o Vitória por 4 a 3. Um time fraco tecnicamente, sem os investimentos da Parmalat que bancou na década de 1990 os melhores elencos do futebol brasileiro; dez anos anos mais tarde, em 18 de novembro de 2012, o Palmeiras empataria com o Flamengo por 1 a 1 Palmeiras, no Raulino de Oliveira, em Volta Redonda, e seria mais uma vez rebaixado.

O Palmeiras perdeu jogos que me fizeram chorar. No dia 20 de dezembro de 2000, após virar o primeiro tempo vencendo o Vasco da Gama por 3 a 0 na finalíssima da Mercosul, acabou perdendo de virada em casa; derrotas dolorosas como a final do Mundial Interclubes, contra o Manchester United em 30 de novembro de 1999. Perdas com goleadas históricas como o 7 a 2 diante do Vitória e os 6 a 0 diante do Curitiba, ambos os jogos disputados pela Copa do Brasil, respectivamente, em 2003 e 2011.

O Palmeiras de grandes glórias perdeu muito. Assim é o futebol. Mas nenhuma derrota foi tão vexatória como a participação de Jair Bolsonaro no jogo em que o time fundado por imigrantes italianos levantou o seu 10º campeonato brasileiro de futebol. A lembrança dos imigrantes italianos que fundaram o Palestra Itália talvez não faça sentido agora para quem não se interessa por história – e virou moda no Brasil se vangloriar de ser ignorante e truculento. Mas um dos maiores erros da diretoria palmeirense, além de convidar Bolsonaro, foi jogar a história do clube no lixo.

O artigo ‘Imigração e Futebol: O caso Palestra Itália’, de José Renato Campos Araújo, doutorando em Ciências Sociais pelo IFCH/UNICAMP, conta como se deu a origem do Palestra Itália pela organização dos imigrantes italianos:

Após a publicação de uma carta, em 14 de agosto, seguida de uma convocação no dia 19, no Fanfulla (jornal de maior circulação em São Paulo na década de 1920, em língua italiana, dirigido aos imigrantes italianos), o Palestra Itália foi fundado em 26 de agosto de 1914. Todos os integrantes da comunidade italiana da cidade de São Paulo interessados na fundação de um quadro ítalo de futebol foram convocados a participarem de um evento a fim de decidirem pela fundação, definirem seu nome e marcarem a data da sua oficialização. Em 26 de agosto, o Palestra Itália é fundado na presença de 46 pessoas, reunidas com o objetivo de estruturar um time de futebol representativo da comunidade italiana fixada na cidade.

Mas o que isso tem a ver com Jair Bolsonaro? Tudo. Na visão torpe deste que se tornou o presidente da República, os imigrantes (ou refugiados) são a “escória do mundo”. Aqueles 46 imigrantes italianos que estavam reunidos na fundação do Palestra Itália possivelmente era a “escória do mundo”, pois vieram para o Brasil reconstruir as vidas destruídas após a Primeira Guerra Mundial. A presidência e a diretoria do Palmeiras aceitaram compartilhar – e até misturar – a conquista de um título nacional com a eleição de um presidente da República. De maneira desnecessária  recebeu a taça de campeão das mãos de quem já vestiu as camisas de grandes clubes brasileiros para tão somente fazer média. Se algum verdadeiro torcedor agradou-se com aquilo, estará pronto a conviver com a ideia de um clube apequenado. Em vez de gritar Palmeiras, a torcida gritava “mito”.

O Palestra, como revela José Renato Campos Araújo, era, por essência, um time formado por classes menos abastadas, de bairros periféricos e operários.

Assim, o Palestra Itália não representava somente uma invasão de imigrantes italianos, na sua maioria originários das classes menos abastadas, mas, também, uma invasão nas arquibancadas de “torcedores italianos”, estes se deslocariam de bairros periféricos e operários, como a Moóca, o Brás, a Barra Funda e o Bexiga para acompanharem os feitos de “italianos” como eles contra a elite local.

Nestes tempos deveras sombrios, a história parece pouco interessar.

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