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Ricupero: “Bolsonaro já compromete o Brasil no exterior”

Ricupero: “Bolsonaro já compromete o Brasil no exterior”

Ricupero: “Bolsonaro já compromete o Brasil no exterior”

Para Rubens Ricupero, ex-embaixador e ex-ministro e ex-embaixador, a diplomacia do governo Bolsonaro deverá ser defensiva porque “vai haver denúncia de toda a parte”.

O ex-embaixador brasileiro Rubens Ricupero afirmou em entrevista à revista Exame que está preocupado com a política externa do governo de Jair Bolsonaro, cuja equipe ainda assumiu, mas já compromete o país com as suas declarações e decisões.


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O senhor diz que o governo Bolsonaro não está caminhando nesta direção?

Não. E tem outra coisa. País nenhum do mundo admira uma polícia que mata 500 suspeitos, como o presidente Rodrigo Duterte faz nas Filipinas. Ele é hoje um pária mundial. É considerado um marginal. Ninguém admira isso. O que se admira é o respeito aos direitos, às liberdades, e tal. E não tem outro caminho. O caminho tem que ser este. Se a política externa brasileira não puder ser isso, o que é que sobra? Sobra o comércio exterior. Mas mesmo o comércio exterior será vítima se não houver um mínimo de respeito ao meio ambiente e aos direitos humanos.

O senhor está preocupado?

Eu estou. E muito. Basta ver as declarações. Digamos que estas declarações vão desaparecer com o tempo, por causa da curva de aprendizado. Mas é preocupante quando o presidente eleito diz que não vai conceder um metro a mais de reserva indígena. A Constituição dispõe que os indígenas têm direitos. É possível ignorar isso? As pessoas da equipe de transição estão falando coisas que já estão causando dano antes de eles terem a realidade do poder. Eles não têm o benefício do poder, mas já estão tendo os ônus.

Qual deve ser o papel da diplomacia brasileira neste cenário?

Tem que ser, como se diz em inglês, “damage containment” (contenção de danos). Uma diplomacia deste tipo acaba virando uma diplomacia defensiva. Porque vai ter denúncia em toda parte. No Conselho de Direitos Humanos, aqui, ali. A diplomacia vai ter que ficar o tempo todo se defendendo em vez de ser uma diplomacia construtiva.

E outra coisa que me preocupa. É que este pessoal não se dá conta do que é o Brasil. O Brasil é um país importante, forte. Um país que é apreciado no mundo. Então tudo que o Brasil faz tem consequência. Mas por outro lado o país não é uma superpotência, como os Estados Unidos. Em outras palavras, os americanos podem fazer coisas que outros países como o Brasil não podem se dar ao luxo de fazer, como na questão da mudança da embaixada em Israel de Tel Aviv para Jerusalém.

O Brasil corre o risco de se isolar?

O que vejo é que antes de ter a realidade do poder, esta é uma equipe que já está comprometendo o Brasil. E não estão comprometendo com pouca gente e com gente pequena. Com a China, com os árabes, com os muçulmanos — que são a maior religião do mundo –, com a Argentina, que é nosso principal vizinho, com a Noruega que é o principal financiador. Com quem mais o Brasil quer brigar?

Tem uma frase boa que o Azeredo da Silveira, que foi ministro das Relações Exteriores do Geisel, gostava muito de repetir. Ele dizia assim: “eu não tolero estas pessoas que fazem questão de atravessar a rua para pisar numa casca de banana na calçada do outro lado”.

É o sujeito que inventa o problema, entende? Por que é isso. Nenhuma dessas questões que foram objetos de declarações da equipe do Bolsonaro precisava ter sido um problema. Porque não era. A Argentina não era problema. O Mercosul não era problema. A China não era problema. Um país que tem 57 mil problemas reais, como o Brasil, vai atravessar a rua para pisar na casca de banana do outro lado? Esta era a frase luminosa do Silveira.

Falando sobre comércio exterior, Bolsonaro e sua equipe econômica têm dito que pretendem buscar mais acordos comerciais. O que acha desta estratégia?

Criou-se uma espécie de consenso no Brasil de que nós nos atrasamos nos acordos bilaterais e que nós temos agora que recuperar o tempo perdido. Sem entrar na análise a respeito de saber se esse consenso é correto ou não, porque eu tenho minhas dúvidas, o problema maior é que nós mudamos de posição num momento em que ninguém está fazendo acordos bilaterais. Nós deveríamos ter tido essa conversão há uns 7 ou 8 anos. No momento em que quem dá o tom da política comercial no mundo é o Trump, com este nacionalismo e protecionismo dele, a nossa posição se torna bastante fora do espírito da época.

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