Editorial

Editorial | O golaço do atacante impedido

Editorial | O golaço do atacante impedido

Editorial | O golaço do atacante impedido

Ao aceitar o convite para participar do governo de Jair Bolsonaro, Sérgio Moro vai desempenhar o papel que sempre fez como magistrado: ser político.

No dia 12 de julho de 2017, o juiz Sérgio Moro condenou o ex-presidente Lula a 9 anos e meio de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, no processo do tríplex do Guarujá. Abria a possibilidade para que o TRF-4, que não costumava contrariar as suas decisões, aumentou a pena para 12 anos e 1 mês.

Poucas horas após a publicação do acórdão no TRF-4 – e sem que se esgotassem os recursos da defesa do ex-presidente, Moro encarcerou Lula. E não foi somente uma prisão. Lula foi impedido de receber aliados e amigos; foi silenciado e impedido de dar entrevistas. Preso, condenado, Lula não pôde concorrer à presidência da República, embora liderasse, ainda que na cadeia, as pesquisas de intenções de votos.

Haddad assumiu a candidatura pelo PT. Na reta final do 1º turno das eleições, Sérgio Moro suspendeu o sigilo sobre a delação de Antônio Palocci que acusava Lula e Dilma de saberem da corrupção na Petrobras, café requentado, mas que acabou incendiando as redes sociais e produzindo mais fake news favoráveis ao candidato do PSL.

Tão logo Jair Bolsonaro venceu, Moro lhe deu as felicitações. Poucos dias depois receberia o convite para dirigir a pasta da Justiça e Segurança Pública. As interferências de Moro citadas acima estão restritas ao período que compreende da condenação à prisão do ex-presidente Lula. Antes disso, Moro havia divulgado áudios da conversa entre Lula e Dilma, o que criou uma atmosfera favorável ao impeachment da ex-presidenta.

Ao aceitar ser ministro de Jair Bolsonaro, que fez reverberar nas redes sociais, nos setores conservadores da sociedade – e até em camadas mais pobres da sociedade – o antipetismo, Moro coloca todas as suas decisões sob suspeita. Ele também perderá a toga que jazia como um manto de inimputabilidade. Ao se colocar na condição e no lugar de fala de político, o juiz de Curitiba vai enfrentar críticas ao seu trabalho, agora numa posição em que terá que responder em coletiva, não mais numa folha de papel, através de um despacho, nota ou de um ofício.

No primeiro deslize, não terá o apoio de associações de magistrados, da mídia que sempre o tratou como herói. Talvez Sérgio Moro encontre na soberba de dirigir um superministério ao lado do rival político do homem que encarcerou o seu ponto de declínio. Não adianta torcer para que as coisas deem certo se elas começam errado. Quem encara a sua nomeação como um gol de placa nunca viu que o atacante estava na banheira o tempo inteiro.

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