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Como se formou grupo com 650 mil mulheres contra Bolsonaro?

Como se formou grupo com 650 mil mulheres contra Bolsonaro?

Como se formou grupo com 650 mil mulheres contra Bolsonaro?

“Mulheres unidas contra Bolsonaro”, já tinha 1,1 milhão de participantes convidadas no Facebook no começo da tarde desta quarta-feira (12).

Do UOL:


A menos de um mês das eleições presidenciais de 2018, grupos virtuais de mulheres estão se mobilizando na rede contra e a favor às declarações do candidato à presidência da República Jair Bolsonaro, do PSL. O maior deles, “Mulheres unidas contra Bolsonaro”, já tinha 1,1 milhão de participantes convidadas no Facebook no começo da tarde desta quarta-feira. Desse total, 650 mil participantes escolheram integrar a comunidade, entrando na página e clicando em “ok”.

Segundo a política do Facebook no que diz respeito aos grupos, as participantes ganham o direito de adicionar outras amigas que se interessem pela causa – o que explica o aumento grande de mulheres nos últimos três dias. Como não se trata de uma página, as convidadas recebem apenas uma notificação de que foram colocadas. Se não quiserem participar, precisam entrar na página e clicar no botão sair. Segundo as organizadoras, o número de desistências é muito pequeno desde o surgimento – elas, no entanto, não informaram o número exato.

As discussões do grupo, no entanto, mostram um engajamento poderoso entre as mulheres que estão ativas. Muitos posts com números expressivos de likes (entre 4 mil e 7 mil) e compartilhamentos.

As regras

Em efeito cascata, foram mais de 800 mil ‘adesões’ recentes na página, aberta no dia 30 de agosto. Apenas mulheres cis ou trans são aceitas no grupo e os perfis são moderados antes de serem aceitos – o time de moderadoras é de cerca de 100 meninas, que garante que não está dando conta de avaliar, tamanha a quantidade de solicitações.

Quem é a organizadora do grupo?

A publicitária baiana Ludimilla Teixeira, de 36 anos, diz que criou o grupo para mostrar a posição das mulheres em relação às declarações machistas e homofóbicas de Bolsonaro. “Pesquisei se havia algum grupo com esse tema, e que representasse as mulheres especificamente, não achei. Queria que ficasse claro que estávamos descontentes”, disse.

Paralelamente à intensa procura pelo grupo, mulheres e ativistas na internet questionaram se o perfil de Ludimilla era verdadeiro ou não – a publicitária, que atua como funcionária pública em Salvador, só tem 33 amigos na rede social.

Ela explicou à Universa que esse perfil foi criado no fim de setembro e tem poucos amigos com a intenção de se proteger de ataques virtuais. “Eu tinha um perfil normal, como todo mundo. Mas comecei a receber milhares de convites e ataques de partidários de Bolsonaro (inclusive da minha própria rede de amigos). A princípio, fechei o perfil, deixando informações restritas. Bloqueei algumas pessoas. Depois decidi que era melhor desativar e criar outro. Assim, resguardo a minha privacidade, da família e dos meus amigos”, contou.

Para chegar ao telefone de Ludimilla, a reportagem conversou com várias moderadoras e administradoras do grupo. Falamos com ela várias vezes na quarta-feira, por ligação e por Whatsapp. Chegamos também ao seu Instagram, ativo desde 2016.

Poder das garotas

No Brasil, 52% dos 147 milhões de eleitores são mulheres. A taxa de rejeição feminina a Bolsonaro, segundo o último Datafolha (11/9), é a mais alta: 49% não votariam nele de jeito nenhum. Isso também explica o interesse de mulheres em adicionar as amigas no grupo. As organizadoras estimam que no pico de procura, nos últimos dias, chegaram cerca de 10 mil pedidos de adesão a cada minuto.

A repulsa é explicada, segundo elas, porque Bolsonaro é conhecido por fazer comentários machistas, como quando disse à deputada federal Maria do Rosário, que só não a estupraria porque “ela não merecia”. Outra frase famosa do candidato é: “no quinto filho dei uma fraquejada, e veio uma mulher”. Ele também já afirmou que mulheres devem ganhar salários menores porque engravidam.

“Nós queremos combater a ignorância com conhecimento e amor. Informar sobre as propostas dele e as dos outros candidatos. É importante dizer que o grupo não é contra a pessoa dele e sim contra a sua candidatura e suas propostas”, diz Ludmilla.

Ela afirmou que depois do grupo, recebeu mensagens de homens surpresos com a revolta das meninas. “Muita gente não tem informação. Mesmo mulheres vieram falar comigo, replicando o que ouvem por aí. Depois da criação do grupo, já vi gente desistir de votar nele.”

Eleição dos indecisos

“Essa vai ser uma eleição que vai ser decidida pelos que ainda votam branco, nulo ou que estão indecisos – que ainda é um grupo muito expressivo”, afirmou o professor de inovação e tecnologia da FGV, Arthur Igreja. Especializado em redes sociais, ele lembrou que o eleitor brasileiro costuma começar a pensar em quem votar quando se aproxima o pleito. “Bolsonaro não deve ganhar no primeiro turno, e no segundo turno é decidido pelas partes de rejeição – a dele é altíssima”, concluiu o professor.

A cientista política Juliana Fratini concorda: “Quem já está decidido a votar nele, vai votar, mas acho que esse barulho impede que ele ganhe votos brancos, nulos e indecisos, uma parcela muito importante do eleitorado”, afirma. Ela atua há oito anos em campanhas eleitorais na internet e diz que, desde o impeachment de Dilma, a questão de empoderamento e emancipação feminina entrou no debate de maneira robusta. “Antigamente, esses discursos estavam alinhados à esquerda, hoje não. Bolsonaro não tem um discurso muito rigoroso com relação às discrepâncias salariais de gênero e violências contra a mulher, por exemplo”, disse ela.

Eventos

Os grupos também também acabaram resultando em manifestações físicas contra o presidenciável. Já há eventos marcados na capital carioca, em Ribeirão Preto e Franca (ambas cidades paulistas) e em Uberlândia, Minas Gerais. Em São Paulo, haverá uma mobilização no Largo Batata, dia 29/9. Nesta quarta, haviam 142 mil interessadas no evento.


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