Escavadeira

O relato de Eleonora Menicucci sobre a tortura na ditadura militar

O relato de Eleonora Menicucci sobre a tortura na ditadura militar

O relato de Eleonora Menicucci sobre a tortura na ditadura militar

Para que nunca mais mulheres e homens sejam torturados por um regime ditatorial baseado no ódio e na repressão.

NOSSA POLÍTICA reproduz importante relato de Eleonora Menicucci* sobre a repressão e a tortura de um dos períodos mais obscuros da nossa história:

Um dia, eles me levaram poro um lugar que hoje eu localizo como sendo a sede do Exército, no Ibirapuera. Lá estava a minha filha de um ano e dez meses, só de fraldo, no frio. Eles a colocaram no minha frente, gritando, chorando, e ameaçavam dar choque nela. O torturador o Mangabeira (codinome do escrivão de policia de nome Gaeta) e, junto dele, tinha uma criança de três anos que ele dizia ser sua filha. Só depois, quando fui levado poro o presidio Tiradentes, eu vim o saber que eles entregaram minha filha para a minha cunhada, que a levou apara a minha mãe, em Belo Horizonte.

Até depois de sair da cadeia, quase três anos depois, a convivi com o medo de que o minha filho fosse pega. Até que eu cumprisse o minha pena, eu não tinha segurança de que a Maria estava salva. Hoje, na minha compreensão feminista, eu entendo que eles torturavam as crianças na frente das mulheres achando que nos desmontaríamos por causa da maternidade.

Fui presa e levada para a Oban. Sofri torturas no pau de arara, na cadeira do dragão, levei muito soco inglês, fui pisoteada por botas, tive três dentes quebrados. Éramos torturadas completamente nuas. Com o choque, você evacua, urina, menstrua. Todos os seus excrementos saem. A tortura era feito sob xingamentos como ‘vaca’, ‘puta’, ‘galinha’, ‘mãe puta’, ‘você dá para todo mundo’…

Algumas mulheres sofreram violência sexual, foram estuprados. Mas apertar o peito, passar a mão também é tortura sexual. E isso eles fizeram comigo. Eles também colocaram na minha vagina um cabo de vassoura com um fio aberto enrolado. E deram choque. O objetivo deles era destruir a sexualidade, o desejo, a autoestima, o corpo.

*ELEONORA MENICUCCI DE OLIVEIRA, era estudante de Sociologia e professora do ensino fundamental quando foi presa, em 11 de julho de 1971, em São Paulo (SP). Hoje, vive na mesma cidade, onde foi pró-reitora de extensão e cultura e professora titular de saúde coletiva da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Foi, durante o governo de Dilma Rousseff Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres.

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