Repercussão

Audálio: Jamais acreditei na versão do suicídio de Herzog

Audálio: Jamais acreditei na versão do suicídio de Herzog

Audálio: Jamais acreditei na versão do suicídio de Herzog

Para o jornalista Audálio Dantas, que escreveu o livro As duas guerras de Vlado Herzog (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012), jamais acreditou na versão oficial do suicídio do jornalista Vladimir Herzog pela repressão do regime militar.

Em entrevista à IHU (Instituto Humanitas Unisinos), em 2012, Audálio fala sobre as questões que ainda não foram esclarecidas da morte Herzog, a atuação da Comissão da Verdade e o papel dos jornalistas na contemporaneidade:


IHU On-Line – O senhor está lançando a obra As duas guerras de Vlado Herzog. Nesse sentido, o que traz de novidade com relação à vida e trabalho do jornalista?

Audálio Dantas – Ao decidir escrever o livro, trinta anos depois do assassinato de Vlado Herzog  numa dependência do II Exército, em São Paulo, não tinha a preocupação de buscar novidades. Pretendia apenas reconstituir o episódio que marcou a minha vida e, por suas implicações, a própria história do país. Seria a minha visão dos fatos, a história contada por quem a viveu de perto e foi um de seus personagens. Muito já se tinha escrito sobre o caso Herzog, que seria, então, contado com outras palavras, as minhas palavras. No entanto, o livro traz novidades, não só sobre a vida de Vlado, mas informações contidas em documentos do Serviço Nacional de Informações – SNI, recentemente liberadas.

IHU On-Line – Então presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo à época, o senhor liderou os protestos contra a versão oficial da morte por suicídio de Herzog na prisão política da capital paulista. Não é isso? Como o senhor conseguiu lidar com esta situação? E como conseguiu chegar aos fatos em que chegou com relação à morte do jornalista?

Audálio Dantas – Em nenhum momento acreditei na versão oficial do suicídio. Nem eu nem a maioria dos diretores do Sindicato dos Jornalistas. Além de todas as evidências expostas na história mal contada dos militares, a visão do Vlado enforcado com os pés no chão, pendente de um cinto que nenhum prisioneiro usava no DOI-Codi, havia inúmeros depoimentos de ex-presos sobre a tortura a que foram submetidos.

Grito de protesto

Foi do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo que partiu o primeiro grito de protesto contra a violência crescente contra presos políticos. No dia seguinte à morte de Herzog, o fato foi denunciado em nota oficial do sindicato, na qual ficou claro que não se aceitava a versão oficial, ao mesmo tempo em que afirmava serem as autoridades responsáveis pela vida dos presos que mantinham sob sua guarda. A nota terminava convocando os jornalistas para o sepultamento no dia seguinte. Tudo isso levou a uma mobilização que, num crescendo, culminou com a realização de um culto ecumênico em memória de Herzog, na catedral de São Paulo, com a presença de oito mil pessoas.

IHU On-Line – Que fatos da morte de Vladimir Herzog ainda não foram esclarecidos?

Audálio Dantas – Se a versão do suicídio nunca foi aceita, ainda falta saber sobre as verdadeiras circunstâncias da morte. Nas mãos de quem e a mando de quem Vlado morreu. Teria sido, como se especula, um “acidente de trabalho”, ou seja, a dose de tortura foi além do que o preso podia suportar? Ou tudo foi deliberado para demonstrar com quem estava a força?

Vale lembrar que, ao final da sentença em que o juiz federal Márcio José de Moraes condenou a União pela prisão ilegal, tortura e morte de Vladimir Herzog, ele determina que o Estado apure as reais circunstâncias em que ocorreu a morte. É notável o fato de que nenhum governo, seja da ditadura que terminou em 1985 ou os que vieram depois, na vigência do regime democrático, tenha cumprido essa determinação judicial.

IHU On-Line – Como o senhor avalia a Comissão da Verdade? Ela pode esclarecer o que foi a ditadura militar brasileira?

Audálio Dantas – Em primeiro lugar, independentemente das conclusões a que possa chegar, a Comissão da Verdade, mesmo que instituída tardiamente, é um fato de grande importância. Ao ser instituída, ela abriu caminho para que se produzisse um importante debate sobre os crimes da ditadura militar.
Ademais, a simples instituição da Comissão da Verdade é um avanço importante no sentido de que o período da ditadura seja discutido, debatido, independentemente de atuação da Comissão que leve a alguma conclusão. A Comissão da Verdade é um espaço importantíssimo para que coisas que já estavam aparentemente esquecidas no país comecem a ser outra vez discutidas.

Mudança

Gostaria apenas de citar uma coisa para mostrar essa importância. A primeira decisão da Comissão da Verdade, algum tempo atrás, foi determinar que se modificasse o atestado de óbito de Vladimir Herzog, que consta até hoje baseado em um laudo médico falso. Quando todos nós, nesses 27 anos, discutimos que não aceitamos a tese de suicídio, finalmente um órgão público chega e afirma que não foi e isso irá modificar o atestado de óbito de Herzog. Agora, que leve ao esclarecimento total dos crimes da ditadura, isso eu não acredito, porque até hoje, desde 1985, passados tantos anos, o governo brasileiro não foi capaz de promover essa discussão e tanto tempo depois acho praticamente impossível.

Não há dois lados

Creio que há um medo que não consigo entender, dos sucessivos governos democráticos, de que haja alguma reação dos militares, porque a lei de anistia perdoou os dois lados. Creio que não há dois lados. Há um lado que é um todo, que é a sociedade brasileira, e uma minoria, entre as quais estão muitos assassinos, torturadores, que não sejam punidos, com prisões ou coisas parecidas, mas que sejam execrados à opinião pública; que seja posto em manchete no país inteiro que fulano foi um torturador, que matou etc. É isso. Creio que a Comissão da Verdade tem essa importância.

IHU On-Line – Hoje o Brasil tem uma presidente que foi militante na ditadura militar. Por esse motivo, o assunto deveria ser abordado de outra maneira?

Audálio Dantas – Se a presidenta Dilma Rousseff sofreu na carne a violência dos torturadores da ditadura, é de se esperar que ela seja mais sensível a essa questão. Ela é, pela posição que ocupa, a principal testemunha dos crimes praticados. Isso não quer dizer que ela seja movida por sentimento de vingança, mas sim por compromisso com a verdade. Ela não tem o direito de se omitir, tanto é que a decisão veio dela da criação da Comissão da Verdade. Mas, ao mesmo tempo, se vê a reação de setores militares, principalmente entre os aposentados, que simplesmente contestam a presidenta da República, porque ela criou a Comissão. Em minha opinião, para que acabasse essa coisa de uma vez, ela deveria usar os regulamentos militares e enquadrar essas pessoas, porque eles não têm o direito. Nós vivemos em um regime democrático, em que é permitida a divergência, mas não é permitida a pregação da impunidade.

IHU On-Line – O senhor está lançando também Tempo de reportagem, compilando textos de sua autoria veiculados entre os anos 1950 e 1990 em diversas publicações. A partir da sua experiência, que avaliação faz da produção jornalística, em especial da reportagem, no Brasil? Os jornalistas de hoje são diferente dos jornalistas de 40 anos atrás? Por quê?

Audálio Dantas – O livro Tempo de reportagem (editora Leya) reúne textos que escrevi principalmente nos anos 1960 e 1970, nas revistas “O Cruzeiro” e “Realidade”. Elas marcam uma fase importante do jornalismo brasileiro, em que a chamada grande reportagem ocupava um espaço que há muito desapareceu dos veículos impressos. São matérias que, além do aprofundamento dos assuntos, apresentam textos bem elaborados, o que hoje, de modo impróprio, a meu ver, chamam de jornalismo literário.

Jornalismo contemporâneo

Hoje, o espaço para essas reportagens é bastante reduzido. Entre outras razões, porque elas exigiam investimentos financeiros, tempo do repórter etc. Muitas matérias atualmente são feitas por telefone, quando não por “consultas” à internet, sem o devido cuidado de verificação da credibilidade das fontes. Quanto aos jornalistas, os que o são de verdade não são diferentes dos de algumas décadas atrás. A diferença é que, atualmente, eles têm que estar em dia com as novas tecnologias.

IHU On-Line – Em sua obra O menino Lula (Ediouro, 2009), o senhor reuniu histórias sobre a infância de Luiz Inácio Lula da Silva, das lutas sindicais até a conquista da presidência, com fotos do acervo pessoal da família. Que avaliação faz dos governos do ex-presidente Lula e de Lula como político? Pode-se dizer que ele continua tendo influência política no país?

Audálio Dantas – O livro O menino Lula é, por assim dizer, a biografia autorizada da infância do ex-presidente. Além de pesquisas, fiz uma longa entrevista com Lula, quando ele ainda exercia a presidência. Posso dizer que ele “se abriu” ao narrar os dias difíceis de sua infância, a miséria vivida no sertão pernambucano, a família desfeita etc. Esse “se abrir” tem muito a ver com o longo conhecimento que tínhamos, desde os tempos das grandes greves do ABC paulista, quando, deputado federal, estive presente nos momentos mais difíceis, desde os piquetes de porta de fábrica aos cercos policiais das manifestações operárias.

Os governos de Lula foram positivos, principalmente do ponto de vista de acesso das grandes massas de famintos a condições mais dignas de vida. Claro, ele mantém grande influência política no Brasil.

IHU On-Line – Nesses mais de 50 anos na profissão de jornalista, qual foi o principal desafio jornalístico que o senhor enfrentou? Por quê? Nesse sentido, quais são as dificuldades de fazer jornalismo no Brasil?

Audálio Dantas – Vou fazer uma revelação aqui: o meu tempo de efetivo exercício da profissão não passou efetivamente de 20 anos. Eleito presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, em 1975, continuei no trabalho, mas sem poder fazer aquilo que sempre foi a minha paixão – a reportagem. Foram muitos os desafios da profissão, mesmo porque sempre mergulhei de corpo e alma na reportagem. Fiz isso literalmente quando fui testemunhar o trabalho dos caçadores de caranguejo num manguezal da Paraíba ou ao interromper uma reportagem turística pela rodovia Panamericana para cobrir uma guerra entre El Salvador e Honduras.

IHU On-Line – Como o senhor vê a formação dos jornalistas na atualidade? Quais são as lacunas ainda existentes na academia com relação à formação deste profissional?

Audálio Dantas – Não tenho formação específica em jornalismo, sou defensor da exigência do diploma universitário para o exercício da profissão. Fiz isso como presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo e como presidente da Federação Nacional dos Jornalistas, por entender que o curso, no mínimo, oferece conhecimento teórico que dá melhores condições para o exercício da profissão. O problema é que nem sempre os cursos oferecidos, muitas vezes em faculdades que são verdadeiras arapucas, formam bons jornalistas. Um dos problemas é que muitos dos professores de jornalismo não passaram sequer perto de uma redação.


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