Opinião

“Não vai haver eleição no Brasil em 2018″, diz Safatle

“Não vai haver eleição no Brasil em 2018", diz Safatle

“Não vai haver eleição no Brasil em 2018″, diz Safatle – Foto: Tatiana Ferro

Para o filósofo Vladimir Safatle, não haverá eleição no Brasil em 2018. O que nós vivemos agora é um momento de degradação institucional, dos atores políticos e de brutalização dos conflitos sociais (…)”.

Da RFI:


Segundo Vladimir Safatle, a palavra que define politicamente o Brasil neste ano de eleições é desagregação. “O Brasil é um país em desagregação, sua experiência de constituição de uma democracia liberal minimamente sustentável foi um fracasso, eu diria que o pacto que produziu uma nova República mostrou completamente o seu esgotamento”, analisa.

“O que nós vivemos agora é um momento de degradação institucional, dos atores políticos e de brutalização dos conflitos sociais, que tende, a meu ver, a piorar”, acrescenta. Durante seu giro internacional, Safatle afirma que nota que a percepção geral das pessoas sobre o Brasil é de “espanto”.

“É sempre bom lembrar que há cinco, seis anos atrás, o Brasil era considerado a bola da vez, era visto como uma potência emergente. As análises do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI) diziam que em 2018 o Brasil seria a quinta economia do mundo”, destaca.

“De repente, este cenário se desagregou de maneira muito rápida. Todo mundo [fora do Brasil] se pergunta o que de fato aconteceu. Não era uma análise só do governo brasileiro, era uma análise partilhada por todos, de que a economia e o processo democrático brasileiros eram sólidos, e tudo isso se mostrou completamente ilusório”, diz o filósofo.

“Isso coloca uma questão para mim muito interessante, qual o nível de autoengano, de autoilusão que o Brasil precisa para dar conta de enxergar o mais concreto da sua realidade, a sua própria fragilidade”, afirma.

Golpe militar no Brasil

Vladimir Safatle acredita concretamente na possibilidade de um golpe militar no Brasil. “Sem sombra de dúvida, eu não teria a menor dúvida a esse respeito. Eu diria até um golpe militar mesmo clássico”, avalia.

“Uma coisa é certa, as Forças Armadas saíram completamente de seu esquadro normal dentro de uma democracia liberal e se tornaram um ator fundamental da política brasileira”, diz Safatle.

“Você tem duas possibilidades: a primeira é que o Brasil se transforme numa espécie de Turquia soft, um país onde você tem um poder moderador que é o Exército. O jogo democrático é uma pantomima, as Forças Armadas definem os limites. E se o conflito social no Brasil entrar numa dinâmica muito mais dura, é possível um golpe militar no senso tradicional do termo”, arrisca.

“O poder judiciário no Brasil é monárquico, é o único que opera sem nenhum tipo de intervenção da população, ninguém te escolha”, diz o filósofo. “A partir do momento em que advogados de defesa do Lula foram grampeados pela Justiça, uma coisa absolutamente impensável, o Estado não pode grampear advogados, a partir do momento que as conversas dele com a presidente da República foram grampeadas e divulgadas no mesmo dia, horas depois, em cadeia nacional, o processo se transformou num processo simplesmente político”, afirma.

Bolsonaro é “candidato feito para não ganhar eleição”

Não haverá eleições em 2018, segundo Safatle. “Existem várias maneiras de não haver eleição. O Brasil teve eleição até 1930, sem eleição. A gente criou essa figura: eleição sem eleição. (…) Uma eleição no interior da qual você tira os candidatos que vão contra o interesse de quem ‘deve’ ganhar”, analisa.

“Bolsonaro é como a Marine Le Pen na França, é um candidato feito para nunca ganhar”, analisa o filósofo. “A função dele não é ganhar. A função dele é outra. A função dele é jogar a pauta do debate à direita e, segundo, é criar uma situação na qual qualquer um que for com ele para o segundo turno, ganha”, diz Safatle.

“Como no caso do Macron na França, alguém que não tinha base política nenhuma, passa para o segundo turno com uma anti-candidata [Marine Le Pen°, e ele ganha”, conclui.

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