Blog do Mailson Ramos

Boff e a resistência no país do surreal

Boff e a resistência no país do surreal

Boff e a resistência no país do surreal

A imagem do filósofo e teólogo Leonardo Boff no portão da carceragem da Polícia Federal em Curitiba, à espera da visita religiosa que faria a Lula (e não aconteceu), nos faz pensar o quanto retrocedemos.

O texto de Fernando Horta, aqui reproduzido, alerta que a novidade no Brasil é retroceder, andar apara trás, conservar o passado em suas etapas mais amargas. Ontem (19), ao negar a visita de Leonardo Boff e Pérez Esquivel, Nobel da Paz em 1980, ao ex-presidente Lula, a juíza Carolina Lebbos mostrou o quão surreal é este país.

Um país em que militantes de um partido político são açoitados com chicote, relembrando a desgraça da escravidão que durante 300 anos fez jorrar sangue e lágrimas dos africanos – e dos nascidos negros – aqui no Brasil. A escravidão que não dissipou. Que aparece dos moradores de rua, dos trabalhadores das minas de carvão, dos flagelados da seca no nordeste.

Um país cuja justiça tem os seus membros representados em imagens num bordel. Gente que manobra, dissimula, trai, mente. Criou-se aqui um judiciário messiânico e punitivista, que, como inquisidor, observa os direitos estabelecidos por uma religião e se esquece do direito constitucional.  Voltando ao passado, o Brasil está às portas da Idade Média, dando sublimes poderes a juízes com o mesmo perfil de Girolamo Savonarola, o padre dominicano que de tanto acreditar na retidão de suas ações (e na capacidade de ser fulminado pela sabedoria de Deus) acabou morto na forca por heresia.

O Brasil é um país surreal e desencantado. Governado por um homem cuja camarilha subiu ao poder por um golpe de estado, o povo vê preso o único candidato em que poderia votar. Isolado, quase incomunicável. Porque não bastava prender. Tinha que jogar do avião. A presença de Lula é forte. E era por isso que o Boff esperava.

Entretanto, a figura do velhinho sentado numa cadeira, resistindo diante da tão poderosa Polícia Federal é mais um dos símbolos de resistência criados em torno de Lula e pela miséria (moral e social) provocada pelo golpe. A elite e a direita (que muitas vezes são a farinha do mesmo saco), estão atordoadas com a ideia de que prender o Lula não adiantou nada. E quem lhes dá o exemplo do insucesso é Esquivel e Boff.

Se eles, jovens idosos, estão resistindo por Lula, o que não fará a militância? Os amigos e amigas que me leem sabem do que estou falando: comecem a observar os muros, as inscrições subliminares nos mais improváveis lugares, a voz dos amigos num boteco, o grito sufocado nas festas de largo, as vozes que ecoam da Europa.

Não há rigoroso inverno que não ceda a uma primavera.

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