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As festas de um ex-delator da Lava Jato

As festas de um delator da Lava Jato

As festas de um ex-delator da Lava Jato

Condenado em 2015 na Operação Lava Jato por distribuir mais de R$ 60 milhões em propinas, o empresário Augusto Ribeiro de Mendonça Neto, 65, curte os benefícios da delação premiada dando festas de arromba em cobertura de 562,53 m², num elegante edifício no Jardim Paulista, em São Paulo.

As informações são de Rogério Gentile, na Folha:


Condenado em 2015 na Operação Lava Jato por distribuir mais de R$ 60 milhões em propinas, o empresário Augusto Ribeiro de Mendonça Neto, 65, não demonstra abatimento ou infelicidade.

Muito pelo contrário. Curtindo em liberdade os benefícios proporcionados por sua delação premiada, virou o terror da vizinhança, uma espécie de rei da balada do Costa Dourada, um elegante edifício na rua Guarará, no Jardim Paulista, em São Paulo.

No mês passado, sem aviso prévio ou preocupação com o barulho, promoveu uma festinha para cerca de 200 convidados, segundo contagem feita por moradores do prédio, em sua cobertura de 562,53 m², equipada com terraço, piscina e uma barra de pole dance.

O evento foi apelidado por um vizinho de “pancadão do delator”, dado o volume produzido no aparelho de som do dúplex, que fica no 24º andar e tem um hall, na entrada do elevador, semelhante a uma boate.

Luzes automáticas mudam de cor a cada segundo e realçam uma painel policromático onde se lê a frase “aqui não é perfumaria”.

A agitação na festa foi tão grande que era possível escutá-la desde os primeiros pavimentos. Quem interfonava para reclamar ouvia um funcionário dizer que nada podia fazer, seguido de risos.

A balada terminou por volta das 6h, quando uma frota de carros alugados, segundo moradores, levou embora os convidados que não tinham condições de dirigir por conta do elevado grau etílico.

Em 2016, o delator já havia se indisposto com o condomínio quando, de acordo com ata de uma reunião, apropriou-se de uma área comum do prédio para instalar condensadoras de ar-condicionado e aquecedores de piso. Advertido, retirou os apetrechos e devolveu o espaço.

Histórico

Mendonça tornou-se delator da Lava Jato após sua empresa, a Toyo Setal, ter sido citada em setembro de 2014 pelo ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa.

Com medo de acabar na cadeia, o empresário procurou os investigadores e revelou o modus operandi do que chamou de “clube” da propina, formado pelas principais empreiteiras do país com o objetivo de fraudar licitações.

Contou, por exemplo, que valores em espécie eram pagos a “Tigrão”, “um moreno, meio gordinho, de uns 40 anos”, emissário de Renato Duque, então diretor de engenharia da Petrobras.

Os crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e associação criminosa renderiam 16 anos e 8 meses de prisão a Mendonça, mas, por conta da delação, a pena foi substituída para o chamado “regime aberto diferenciado”.

Além de pagar indenização de R$ 10 milhões, foi condenado a prestar, durante quatro anos, 30 horas de serviços comunitários por mês, apresentando relatórios bimestrais de suas atividades.

“A efetiva colaboração de Augusto Mendonça não se discute”, escreveu o juiz federal Sergio Moro, na sentença, em 2015.

“Prestou informações e forneceu provas relevantíssimas para a Justiça de um grande esquema criminoso”, declarou Moro.


Em tempo: Em novembro de 2016, a defesa do ex-presidente Lula levantou suspeitas de que a força-tarefa da Lava Jato estivesse colaborando em caráter não formalizado com os EUA. Augusto Mendonça, em depoimento, afirmou que “não sabia se podia responder” à indagação da defesa de Lula se ele firmou acordo de colaboração em outro país, além do Brasil. Moro impediu o questionamento por conta de um possível acordo de confidencialidade do delator.

Mais adiante, Mendonça Neto foi autorizado a responder se viajou aos Estados Unidos, desde que não especificasse a finalidade. “Fiz várias viagens”, afirmou, relatando que foram no ano passado. “Fui talvez entre quatro ou cinco vezes.”

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