História

O exílio de Jango

O exílio de Jango

O exílio de Jango

O impeachment de João Goulart foi aprovado sob protestos da bancada do governo. Começava um novo desafio para Jango que estava em Porto Alegre e seguiria para o amargo exílio no Uruguai.

Nossa Política reproduz os relatos do exílio de Jango no Uruguai. Trabalho de Carlos Fehlberg, do Instituto João Goulart:


O difícil exílio de Jango no Uruguai foi marcado por surpresas, dúvidas e desalento. Ele tinha seguido de Porto Alegre com destino a São Borja acompanhado do general Assis Brasil e do coronel Pinto Guedes, mais dois ajudantes de ordens e do secretário Eugenio Caillard, depois da aprovação de seu impeachment. Jango a princípio não pensava em abandonar o Brasil e imaginou que, como Getúlio Vargas, viveria ali ( em São Borja) seu exílio, dentro assim do próprio país. Mas quando soube que o governo americano tinha reconhecido, rapidamente, o novo governo brasileiro sentiu que isso não seria possível. E mais: o general Assis Brasil foi categórico ao dizer-lhe que deveria tomar um destino, pois do contrário correria o risco de ser preso.

Em Montevidéu, Jango passou a receber informações do cenário político brasileiro.

Goulart chegou a voar de estância em estância, no interior gaúcho, evitando patrulhas do Exército. E num diálogo, numa de suas últimas paradas mais protegidas, Assis Brasil perguntou-lhe o que, afinal, pretendia fazer. E Jango logo respondeu: “Quero ir para o Brasil Central, numa terrinha que tenho, para o Xingu”. Na realidade Jango ainda estava desorientado, mas era uma opção que o seduzia. O general tentou demovê-lo, dizendo que seria preso e confinado, possivelmente em Fernando Noronha, observando-lhe que deveria pensar na família. Diante da insistência do general, Jango questionou-o então sobre a melhor alternativa para o exílio e o general logo respondeu: o Uruguai. Ele admitiu, pois dali poderia ir para a Argentina, porque seria só atravessar o rio… O general desaconselhou de outras opções por razões de segurança e insistiu: “o senhor vai para o Uruguai” e acabou obtendo concordância, segundo relata a biografia produzida pelo historiador Jorge Ferreira.

Lenta decisão

Pela manhã, no dia 4 de abril, seguiram para o sítio Pesqueiro. Tiveram a informação de que o governo uruguaio daria asilo. Seguiram para outra estância, a Cinamomo, mas ao concluir que não tinha muitas alternativas, Jango começou a aceitar a hipótese do asilo uruguaio e escreveu uma carta, nesse sentido, ao deputado Doutel de Andrade que estava no Brasil. Ele e o general partiram, então, no Cessna para o Uruguai. Jango ainda tentou resistir, indeciso, mas o piloto e o general Assis Brasil insistiram, pois um retorno ( ou permanência) ao Brasil significaria prisão. Ao desembarcarem, por volta das 17 horas do dia 4 de abril no aeroporto da cidade de Pando, foram recebidos pelos vice-ministros de Relações Exteriores e da Defesa uruguaios e pelo embaixador brasileiro junto a Associação Latino-Americana de Livre Comércio. A instrução era para Goulart ser recebido com todas as honras. E mesmo assediado, evitou falar com jornalistas: foi para uma casa que o governo uruguaio preparara.

Antecipação

Antes, Maria Thereza e os dois filhos tinham desembarcado no aeroporto de Montevidéu e, apesar do cerco dos jornalistas, um amigo recebeu logo instruções de Jango para alojar a família. Primeiro para uma residência e, depois, rumo a uma casa de praia de um amigo de Jango, Alonso Mintegui, ex-funcionário da embaixada brasileira, a 40 minutos da capital. Mal os familiares se instalaram, porém, os repórteres descobriram onde estavam e até tentaram arrombar a porta tal a insistência em fotografá-la. Nesse cenário, numa situação confusa, Maria Thereza recebeu o apoio de um senhor e esposa ( vizinhos) que a aconselharam a receber a imprensa. E ela decidiu enfrentar os jornalistas, conversou um pouco, até que chegassem os seguranças oferecidos pelo governo. Confusa, ela tinha recebido algum dinheiro e foi bem acolhida e apoiada por vizinhos, após falar com os jornalistas.

Nova realidade

Afastado do governo, Jango desperta as atenções da mídia.

Jango chegou somente no dia 6. E logo viu uma multidão de jornalistas cercando novamente a casa, mas sua primeira atividade no exílio foi dar um passeio com os filhos… em carro emprestado. Dias depois teria outra missão difícil, a de explicar a Maria Teresa que ela não poderia voltar ao Brasil para susto e desespero da esposa, cujos pertencentes tinham ficado na Granja do Torto. Aos poucos ela foi se ajustando à nova realidade.

E parte para ataque

No dia seguinte, o ex-presidente falou à imprensa dizendo que não teria saído do país se o Congresso tivesse agido como no Estado de Direito. Embora estivesse em território brasileiro ( estava em Porto Alegre), o Poder Legislativo declarou vago o cargo de Presidente, perdendo desta forma sua autoridade legal. Respondendo a outra pergunta, disse que não ofereceu resistência porque em Porto Alegre, se sentiu desligado do resto do país e sua única alternativa era a guerra civil. E deixou claro que não era e nunca tinha sido comunista. Sua política tinha sido nacionalista e não desejava confrontos.

O início

A queda de Jango em 1964 é abordada por um dos líderes da oposição, Daniel Krieger, da UDN (partido oposicionista) no seu livro de memórias. Ele diz que, diante do agravamento do cenário político-militar no Rio Grande, o governador Meneghetti tinha se deslocado para Passo Fundo, deixando o Palácio Piratini, por medida de segurança. As notícias sobre o cenário no Rio Grande logo chegaram a Brasília e o senador Daniel Krieger preocupado procurou o presidente do Senado ( e do Congresso), Auro Soares de Moura Andrade. Este disse ao senador gaúcho, depois de ouvir seu relato, que se lhe fosse dada cobertura declararia vaga a Presidência da República. Com uma rápida articulação da oposição, o presidente do Senado abriu à noite a sessão do Congresso e confirmou a promessa: declarou vaga a Presidência, dizendo que Jango se ausentara do país sem licença. A confusão foi geral, diante da imediata reação governista que identificava o golpe. O próprio Krieger em suas memórias admite que a solução almejada fora obtida com a quebra momentânea da legalidade.

O Presidente da Câmara Rainieri Mazzilli voltou, nessas condições, a assumir temporariamente o governo. Tinha sido ele, no dia 7 de setembro de 1961, quem passara o governo a Jango depois da renúncia de Jânio Quadros. E agora voltava, ainda que, por pouco tempo, ao governo. Logo o ciclo militar iniciaria seu longo período no poder. Quanto ao impeachment, Jango, na realidade, estava em Porto Alegre numa reunião na residência do comandante do III Exército, presente ainda o ex-governador Brizola e outras lideranças passando a limpo o grave cenário político nacional. Ainda no Brasil, portanto.


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