Blog do Mailson Ramos

A primeira grande foto de 2018 explica 2017

A primeira grande foto de 2018 explica 2017

A primeira grande foto de 2018 explica 2017 – Foto: Lucas Landau

A primeira grande foto de 2018 explica o que foi 2017, o ano da ratificação do golpe e da concretização dos retrocessos.

Recentemente, ao escrever uma resenha sobre o filme ‘Repórteres de Guerra’ (2010), iniciei com a seguinte frase: O fotógrafo não escolhe o que fotografar. Este preâmbulo marca a sensação ao ver pela primeira vez, e depois, e depois, a foto de Lucas Landau: o menino negro que olha os fogos em Copacabana, distante de tudo, e ao fundo uma gente branca, vestida de branco que se abraça e comemora (comemora o quê?).

Em sua página no Facebook, o fotógrafo contextualizou a foto:

Eu estava a trabalho fotografando as pessoas assistindo aos fogos em Copacabana. Ele estava lá, como outras pessoas, encantado. Perguntei a idade (9) e o nome, mas não ouvi por causa do barulho. Como ele estava dentro mar (que estava gelado), acabou ficando distante das pessoas. Não sei se estava sozinho ou com família. Essa fotografia abre margem para várias interpretações; todas legítimas, a meu ver. Existe uma verdade, mas nem eu sei qual é.

O olhar de Landau traz uma perspectiva social marcante de 2017: o Brasil regrediu socialmente para manter os privilégios da elite. O menino que olha extasiado os fogos de artifício, sem camisa, isolado, é a imagem dos pobres que voltaram a passar fome, cozinhar em fogão a lenha, habitar as calçadas da indigência.

Enquanto este Brasil dos pobres continua isolado, periférico, o Brasil das elites festeja como se nada estivesse acontecendo. Aquela gente de roupas brancas – que até um dia desses eram amarelas – está distante da realidade infame da pobreza. Muito mais terrível é o abismo que divide estes dois países. Como diz o jornalista Mauro Santayana, no fim, é sempre a luta de classes.

A primeira grande foto de 2018 explica o que foi 2017, o ano da ratificação do golpe e da concretização dos retrocessos. Enquanto os brasileiros não compreenderem luta de classes, a casa grande e a senzala, o abismo da desigualdade social, o mercado contra o social fotos como esta representarão a nossa derrota como sociedade.

Devemos olhar esta foto muito além dos seus pixels. Pensemos no simbolismo que ela nos traz. E na realidade anacrônica de um país que se atirou no abismo por ideais vãos.

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