Editorial

Editorial | O Brasil que a elite quer é este aí: miserável e desigual

O Brasil que a elite quer é este aí: miserável e desigual

Editorial | O Brasil que a elite quer é este aí: miserável e desigual

As jornadas de manifestações contra o governo de Dilma Rousseff tinham como objetivo acirrar a luta de classes e estabelecer o cancro da desigualdade social.

Trabalho escravo, ataque aos direitos humanos, ração para pobre, presidente corrupto, quadrilha no poder, aumento de combustíveis, destruição de políticas públicas, demonização da ação do estado sobre a população mais pobre… Mas o princípio de tudo é a desigualdade social. O país, na visão das elites, deve ser dividido por um abismo entre ricos e pobres, cada classe restrita ao em seu espaço físico, simbólico e desigual. A causa da disparidade social é a histórica e abominável noção de propriedade das classes dominantes que a acompanha desde a chegada dos portugueses. O Brasil nasceu desigual.

Um país que demorou trezentos anos para abolir o tráfico de escravos – e foi o último a fazê-lo na América –, continua obedecendo aos interesses de latifundiários e escravagistas dos tempos atuais. A edição da portaria nº 1.129/2017 que regulamentava o trabalho escravo é um destas aberrações que colocam o Brasil na contramão do mundo civilizado; isso, entretanto, não é mais nefasto do que a ministra dos Direitos Humanos, Luislinda Valois, pedir aumento de salário de R$ 61 mil reais, alegando que a sua situação é como a de uma escrava (como ministra ela recebe R$ 33 mil).

No Brasil se fala de escravidão com a hipocrisia das elites dominantes, elas que escravizaram milhares de negros, depois utilizaram a sua mão de obra barata por longas décadas e ainda hoje sobrevivem nesta estrutura de desigualdade que permite solapar dos pobres trabalhadores os seus direitos.  Porque pobre tem que comer é grânulo de alimento prestes a vencer, ração de escravo, comida para cachorro. Neste miserável país, onde vice-presidente se apossa do poder comprando deputados, falar de igualdade social virou crime.

Aquela gente “nobre” que saiu às ruas em 2013, 2015 e 2016 desapareceu. Das varandas dos belos apartamentos não se ouve mais o tilintar das panelas de refinada prataria. O silêncio da classe média é resultado do seu maquiavelismo: ela queria um governo que propusesse o fim do Bolsa Família, do Minha Casa Minha Vida, do Mais Médicos, de toda e qualquer política social e de incentivo às classes mais pobres. Taciturna, apoia a quadrilha instalada no Palácio do Planalto, desde que as medidas do chefe da corrupção sejam contra os menos favorecidos. Em troca, comemora a baixa do dólar para poder viajar à Disneylândia. Mais fútil e vazia impossível.

Por motivos menos escandalosos do que, por exemplo, ter um dos seus assessores filmado e fotografado carregando malas de propina, uma presidenta teve o seu mandato surrupiado. A destruição simbólica da República brasileira se deu no dia 17 de abril de 2016, quando ficou evidente a ânsia dos parlamentares brasileiros, salvo raras exceções, por estabelecer um tempo de derrotas acachapantes sobre o próprio povo. Vive-se a retórica do conservadorismo, das negociações espúrias, do silêncio cúmplice da imprensa, da mentira da recuperação econômica. É tudo um plano de fundo para as maquinações das classes hegemônicas.

Um governo que se reúne apenas com o empresariado diz de que lado da força está; é um governo decidido a triturar direitos, dedicado aos interesses de que quem foi às manifestações dizer: “eu pago o seu salário” ou “sonegar impostos não é corrupção”. Por isso, as manifestações acabaram e Michel Temer, mesmo soterrado por denúncias e impopularidade, continua firme no cargo. É aquela velha história: primeiro a gente tira a Dilma, depois…

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