Política

Brasil de volta ao mapa da fome

Brasil de volta ao mapa da fome

Mapa de 2014 mostrava o Brasil (em verde) como país fora da zona de fome no mundo.

Direitor-geral da FAO, José Graziano afirma que se o Brasil não conseguir retomar o crescimento econômico, gerar empregos de qualidade e ter um programa de segurança alimentar vai voltar ao mapa da fome.

Em entrevista ao Uol, o brasileiro José Graziano da Silva, diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, a FAO, alertou para a volta do Brasil ao mapa da fome.


UOL – O Banco Mundial calcula que cerca de 28,6 milhões de brasileiros saíram da pobreza entre 2004 e 2014, mas também avalia que, em 2016, entre 2,5 milhões e 3,6 milhões de pessoas voltaram a viver abaixo do nível de pobreza. Em 2017, as expectativas também são ruins. Em 2014, o Brasil saiu do Mapa da Fome. Podemos voltar a ser um país em que a fome e a miséria sejam novamente assustadores? Regredimos em termos alimentares?

José Graziano da Silva – Não vou entrar nos méritos dos números do Banco Mundial, em torno dos quais há muita controvérsia. Mas é importante entender que essa linha imaginária que separa a pobreza extrema dos chamados “não pobres” possui uma grande flutuação. As pessoas que estão abaixo dessa linha normalmente são os desempregados, são os que fazem trabalhos aqui e ali, sem ocupação formal, são os que têm uma família numerosa e vivem em uma região muito pobre. Esse é um ponto importante: a pobreza não é um atributo individual – é um atributo coletivo. Quando nos referimos à pobreza, devemos considerar uma região pobre, que é desprovida de acessos a serviços públicos, por exemplo, de saúde, educação de mínima qualidade.

Voltando ao ponto: quando há uma crise econômica, muitas pessoas começam a mover-se para a linha abaixo da pobreza. É uma linha tênue, principalmente em razão do emprego temporário: quando a pessoa consegue o emprego, passa para cima da linha; quando perde o emprego, retorna para baixo da linha. Isso acontece muito entre os trabalhadores rurais volantes, por exemplo. Quando há uma safra boa, garante-se o emprego por seis a oito meses no ano, e então os trabalhadores rurais temporários sobem para cima da linha. Quando a safra é ruim, reduzida no tempo com menos meses de trabalho, passam para baixo da linha. A flutuação dessa população em torno da linha da pobreza é muito grande.

Nós estimamos que, seguramente, esses 2,5 a 3,6 milhões que voltaram para baixo da linha da pobreza sejam parte dessa população flutuante. Esse número deve ser ainda maior, pelo menos o dobro ao longo do ano. Esse contingente não conseguiu vencer definitivamente o tema da pobreza extrema. E, quando falamos de pobreza extrema, falamos de uma identidade com a fome, porque a pobreza extrema é medida em função do acesso aos alimentos. As pessoas ganham uma quantidade de dinheiro que não lhes permite comprar o mínimo necessário para a sobrevivência. Então as duas medidas estão diretamente associadas uma com a outra. Acho que, se o Brasil não conseguir retomar o crescimento econômico, gerar empregos de qualidade e ter um programa de segurança alimentar voltado especificamente para as zonas mais deprimidas, nós podemos, infelizmente, voltar a fazer parte do Mapa da Fome da FAO.


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