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Brasil pós-golpe: o panorama de um país surreal

Brasil pós-golpe: o panorama de um país surreal

Brasil pós-golpe: o panorama de um país surreal – Foto: Lula Marques

O Brasil pós-golpe é a representação mais pura do surrealismo: uma obra imperfeita que mescla o burlesco e o drama num só roteiro.

Enquanto uma parte da população regurgita o seu ódio em pequenas porções de peçonha, a outra parte permanece inerte diante dos escândalos de corrupção. O Brasil não é mais o país dos paneleiros e das multidões em verde e amarelo a protestar contra os ladrões do dinheiro público.

Este seleto grupo de brasileiros é resultado de um processo de idiotização promovido pela mídia hegemônica. A mídia construiu um exército de alucinados capazes de todos os tipos de depravações e expressões demonstrativas do mais puro ódio. Para tão somente espezinhar um partido e uma ideologia de esquerda.

O Brasil se tornou um país rendido nas mãos de corruptos e corruptores que, para tomar o poder sem votos e instalar um projeto econômico neoliberal, acionaram as mais reacionárias forças e movimentos conservadores.

Vive-se 1964 sem a impressão dos tanques de guerra; mas basta que um grupo de manifestantes demonstre a sua aversão ao governo e logo será rechaçado com bombas de gás lacrimogêneo e tiros de bala de borracha. Isso é o que eles chamam de democracia.

O golpe destruiu a fortaleza da cidadania e impôs uma agenda catastrófica baseada na remoção de direitos e supressão de políticas sociais responsáveis por um avanço na qualidade de vida dos brasileiros mais pobres.

Estes, entretanto, foram esquecidos naquele fatídico 12 de maio, quando Michel Temer assumiu o poder. Daquele dia até então muitas são as promessas e poucas as mudanças. Um governo que tem em seu núcleo maciço ministros como Geddel Vieira Lima, José Serra, Romero Jucá e Moreira Franco não pode ser levado a sério.

Deste núcleo – com o auxílio providencial de Rena Calheiros – surgiu a mirabolante ideia de estancar a sangria (Lava Jato) nas barbas de Sérgio Moro, o juiz parcial. Aturdidos, os manifestantes que foram favoráveis ao impeachment de Dilma fecharam os olhos diante da empreitada dos cavalheiros do PMDB.

Após a morte de Teori Zavascki, Michel Temer nomeou para a sua vaga no STF o tucano e ministro da Justiça Alexandre de Moraes. Burlesco, pero no mucho! Moraes, pretendendo mostrar que não tem vínculo com o PSDB, pediu a sua desfiliação. Todo mundo está cansado de saber,  por antecipação, que ele fará uma dupla do barulho com Gilmar Mendes.

Gilmar é aquele ministro da Suprema Corte e presidente do TSE, que, mesmo julgando a ação da chapa Dilma-Temer, janta aos domingos com o usurpado. Como se já não bastasse a viagem que fez a Portugal acompanhando a comitiva de uma autoridade a ser julgada por ele.

Neste país surreal se aceita tudo, menos as atitudes de Lula. O Lula não pode discursar no velório da mulher com quem viveu por mais de trinta anos; mas Moro, Temer e Serra podem discursar no velório de Teori Zavascki.

Isso é tão normal para um país onde os vazam dados de exames de pacientes! Um país onde um neurocirurgião dá dicas, nas redes sociais, de como matar um paciente na mesa de cirurgia. É surreal como o ódio propagado por uma pessoa que já não mais vive.

O brasileiro fez questão de não reconhecer o que viveu nos últimos 14 anos. Aderiu ao discurso elitista do “fora PT” por um modismo propagado quantas vezes fosse preciso para garantir a força do mantra. A pauta ali não era a corrupção. Era o estabelecimento de forças reacionárias contra o projeto popular que nunca, jamais teve vez com a elite.

 A classe média engendrou subterfúgios e aderiu ao discurso do golpe. Hoje, famílias retornam a um patamar inferior na escala social e provam de um veneno muito amargo, ou o que eles consideravam ser um remédio.

O Brasil pós-golpe é isso: um misto entre o burlesco e o dramalhão.

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