História

Brasília foi a menina-dos-olhos de JK (Parte I)

Brasília foi a menina-dos-olhos de JK (Parte II)

Brasília foi a menina-dos-olhos de JK (Parte I)

A construção de Brasília, a nova Capital Federal, foi para Juscelino um capítulo especial, uma marca indelével de sua passagem pela presidência da República.

A menina-dos-olhos do estadista Juscelino Kubitschek foi a construção da nova Capital Federal, Brasília.

Em apenas 42 meses, ele conseguiu erguer a cidade “no meio do nada” e inaugurá-la em 21 de abril de 1960. Mais tarde, Brasília foi tombada como Patrimônio Histórico da Humanidade e é hoje apontada como uma das obras arquitetônicas e urbanísticas mais relevantes da atualidade.

A nova capital nasceu em torno do Catetinho, residência oficial do presidente da República no Planalto Central durante a construção da cidade e primeira obra a rasgar o sertão. Levantado em apenas dez dias – entre 22e 31 de outubro de 1956 – o projeto do arquiteto Oscar Niemeyer era simples, de madeira sobre pilotis, e serviu como importante ponto de apoio para quem precisava percorrer os canteiros de obra ou pernoitar no Planalto Central. Ali, se hospedaram em 10 de novembro de 1956, por exemplo – pela primeira vez sob forte chuva –, JK, seu cunhado Júlio Soares, Israel Pinheiro, o major Dilermando Silva, um jornalista e um deputado.

Até a inauguração de Brasília, em 1960, a localização da capital do país foi uma obsessão histórica. Ao longo dos tempos, governantes, pensadores e homens de ação refletiram sobre a questão, alternando justificativas para afastar a cidade o mais possível das costas. Ainda no século XVII, a primeira nota de inquietação rondou uma das mentes mais esclarecidas da época, a de frei Vicente do Salvador, historiador e autor da primeira História do Brasil. O jornalista Hipólito da Costa Pereira Furtado de Mendonça e o estadista José Bonifácio de Andrada e Silva também analisaram as desvantagens de uma capital litorânea. Na época, o perigo vinha do mar.

Em resposta ao edital conclamando os interessados a apresentarem sugestões para a concepção urbanística da nova capital, mais de 60 candidatos se inscreveram. A comissão julgadora era formada por grandes nomes, como o do professor de Planejamento da Universidade de Londres, William Holford. Ao dar o seu parecer sobre o projeto de Lúcio Costa, Holford derramou-se: “É uma das contribuições mais interessantes e significantes feitas em nosso século à teoria do urbanismo moderno, uma obra prima!”. A partir de então, a dobradinha Costa-Niemeyer faria furor no Planalto Central.

O nome Brasília vem de longa data. Foi sugerido em 1823 por José Bonifácio de Andrada e Silva, em memorial encaminhado à Assembleia Geral Constituinte do Império, 150 anos depois de o chanceler Veloso de Oliveira ter apresentado a ideia ao príncipe-regente. Desde 1987, a Unesco reconhece Brasília como Patrimônio Histórico e Universal da Humanidade.

Outras obras surgiram depois do Catetinho, sempre regidas pela batuta dos dois arquitetos responsáveis pela concepção da cidade, Lúcio Costa e Oscar Niemeyer. Em sua maioria, se concentrava no núcleo chamado Núcleo bandeirante ou Núcleo Pioneiro – conjunto de casas de madeira destinadas aos funcionários da Novacap, os chamados candangos.

Dos quatro cantos do país, eles vinham em número cada vez maior ao Planalto Central, sozinhos e carregados de sonhos. Chegavam dispostos a tentar a vida no sertão e ocupavam acampamentos formados por barracões toscos e tendas de lona. Trabalhavam quase 14 horas por dia, em turnos que se revezavam de sol a sol. Não tinham contato com parentes ou amigos e enfrentavam toda sorte de problemas – desde um custo de vida proibitivo em função do isolamento da região a salários ainda irregulares no início do governo.

Incansável, todavia, a mão-de-obra de traços indecisos, mistura de nortistas e sulistas, ergueu as fundações da nova capital com determinação e coragem: inaugurou o asfaltamento de Brasília, assentando o primeiro concreto asfáltico no dia 5 de agosto de 1958 e, um mês depois, acompanhou o chefe da nação até o local onde plantou a primeira árvore do Plano Piloto.

Durante toda a construção da cidade, essa massa humana testemunhou outros avanços do progresso naquilo que parecia ser o fim do mundo: abriu as portas para primeira escola para os seus filhos num galpão cedido pela Novacap; acenou para o primeiro ônibus da viação Araguarina que fez o trajeto entre Goiânia e Brasília em janeiro de 1957; e, em 6 de julho do mesmo ano, participou da cerimônia de abertura do primeiro hospital do Planalto Central.

No Planalto Central, quem tinha dinheiro podia viver uma vida melhor: pleitear um lote de terra, puxar água, montar um estabelecimento comercial ou quem sabe fixar residência. Bastava ter uma profissão. De posse do palmo de chão, em troca, era preciso adquirir madeira e matéria prima com recursos e levantar um barraco ou construir uma loja. Assim, a cidade começou a crescer e, na sua porção mais nobre, passou a ser chamada de Plano Piloto.

Leia a segunda parte desta matéria aqui.

COHEN, Marleine. JK: Personagens que marcaram época. São Paulo: Globo, 2006.

1 Comentário

  • Brasília foi construída em uma época em que os brasileiros acreditavam no futuro. O sonho, logo solapado pelos devotos do atraso, parecia reviver em um Estado solidário. Novo golpe, e temos um governo solitário, respaldado em armas, cassetetes e gases tóxicos.

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