História

Brasília foi a menina-dos-olhos de JK (Parte II)

Brasília foi a menina-dos-olhos de JK (Parte II)

Brasília foi a menina-dos-olhos de JK (Parte II)

Brasília foi erguida do pensamento de Juscelino, pela idealização de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer e sob o trabalho braçal dos candangos.

Não deixe de ler a primeira parte desta matéria aqui.

E ele chorou

Era uma quarta-feira daquele mês de abril de 1960, quando, depois do único despacho do dia – responder a um telegrama do governador de São Paulo, Carvalho Pinto, no qual informava que o Instituto de Energia Nuclear da Universidade de São Paulo havia conseguido separar, pela primeira vez , o urânio atomicamente puro –, JK pegou “os dois portões de ferro da entrada do Palácio” e os puxou “lentamente, e com solenidade, até que se fechassem”.

Naquele momento, 20 de abril de 1960, o Catete deixava de ser a sede do governo. A residência oficial do presidente da República seria o Palácio da Alvorada, em Brasília. Às 10 horas ele tomou o avião presidencial e seguiu para o Distrito Federal.

Em Brasília, a festa marcada para o simbólico 21 de abril, teria início com uma missa campal, assim que os ponteiros anunciassem meia-noite. Depois, ao raiar do dia, um toque de alvorada e eis que o chefe da nação mergulharia numa agenda de compromissos de perder o fôlego: parada militar, desfile de candangos, baile nas ruas, queima de fogos, passeata em carro aberto, esquadrilha da fumaça, baile de gala, recepção aos convidados estrangeiros.

Durante as solenidades, a todos JK atendeu com disposição e alegria. Por onde passou, do pó do sertão – que cobriu indistintamente fraques, cartolas e trajes dominicais dos candangos – brotou uma esperança, “a capital da esperança”, como chegou a evocar o ministro da Cultura da França, André Malraux, presente à inauguração de Brasília para manifestar seu estupor diante da obra: “Como o senhor conseguiu construir tudo isso, presidente, em pleno regime democrático?”

Naquela noite, Juscelino chegou à Praça dos Três Poderes pontualmente às 23 horas e 35 minutos. Sob dois poderosos holofotes do Exército que varriam com seus fachos os  rostos da multidão que se comprimia ao lado do altar, o prédio do Supremo Tribunal Federal pulsava luz na noite, enquanto, lá fora, a cidade permanecia inerte sob um manto de espessa escuridão.

À esquerda, três cardeais brasileiros ocupavam seus genuflexórios – dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota, de São Paulo; dom Jayme de Barros Câmara, do Rio de Janeiro; e dom Álvaro Augusto da Silva, da Bahia. Outras autoridades eclesiásticas, entre elas o núncio apostólico no Brasil, dom Armando Lombardi, enfileiravam-se mais adiante. À direita, o cardeal Cerejeira ocupava um trono ornamentado com rico dossel.

Assim que JK tomou seu lugar, a solene missa de Ação de Graças por Brasília teve início. Faltavam poucos minutos para a meia-noite e a tão esperada data de 21 de abril de 1960 estava prestes a escrever uma nova página da história do Brasil.

À revelia daquele nicho que jorrava civilização e cristianismo, nos arredores, a nova capital ainda cultivava ares de um descampado rebelde. Mas, sob o embalo das vozes do Coral Renascentista de Belo Horizonte, regido pelo maestro Isaac Karabtchewsky, o sertão se curvou diante da imponência do Kyrie da Missa da Coroação, de Mozart, e, durante o Credo, acompanhado pela Orquestra de Câmera de São Paulo, toda viva alma no Planalto Central se recolheu em prece.

De repente, os acordes vibrantes e festivos do Hino Nacional, a cargo da Banda de Fuzileiros Navais, quebraram a circunspecção geral e romperam o silêncio para acompanhar a elevação da hóstia santa. Neste exato momento, as luzes da cidade se acenderam todas de uma só vez – nas ruas, nas residências, nos palácios, nos acampamentos – e Brasília irrompeu das trevas, pronta, feérica, majestosa.

Juscelino, que não era homem de perder o sorriso, então chorou. Não eram lágrimas como as que derramaria 12 anos depois, ao ter de visitar às escondidas a cidade que criara.

COHEN, Marleine. JK: Personagens que marcaram época. São Paulo: Globo, 2006.

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