Notícias

Para Dilma, os brasileiros entorpecidos

Para Dilma, os brasileiros entorpecidos

Para Dilma, os brasileiros entorpecidos – Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

O brasileiro que reagiu contra os algozes de Getúlio Vargas não são os mesmos brasileiros que assistem atônitos à derrubada de Dilma Rousseff.

Há 62 anos, o povo organizava filas para ver Getúlio Vargas pela última vez, no Palácio do Catete, onde, sob juramento, só saiu morto.

Dizem que a Vargas utilizou a morte como arma política; mas a morte em si não seria mistério de devoção.

O que fez o povo lotar as praças em manifestações, revirar carros dos jornalões, protestar contra a morte do presidente foi o sentimento de que forças reacionárias pretendiam assumir o poder a força.

Carlos Lacerda, como não podia aparecer, instou o vice Café Filho a falar como presidente da República. Aquela movimentação que tentou derrubar Vargas seria o embrião da ditadura de 1964, dez anos mais tarde.

Hoje a história passa diante dos nossos olhos, mas estamos entorpecidos. De novo pela mídia e por promessas falsas. De novo estamos diante de um vice que conspirou contra o presidente; de novo o Brasil está nas mãos da burguesia para virar seus canhões contra o pobre trabalhador.

A seguir, os detalhes daquele fatídico 25 de agosto de 1954 quando Vargas, já morto é homenageado pela população. Aqueles brasileiros fizeram pelo seu presidente o que os brasileiros de hoje jamais farão por Dilma.


(…)

O dia amanhece com a notícia de que o presidente tinha se suicidado. A carta-testamento é divulgada nos jornais e lida nas rádios o tempo inteiro. Decreta-se luto nacional e os populares começam a ir às ruas prestar homenagens. Mulheres chorando, com vestidos pretos e com uma foto de Vargas, participam de passeatas e choram no cortejo fúnebre (25 de agosto de 1954). Alguns sobem em árvores para dá o último adeus à memória de Vargas. O caixão chega ao Aeroporto Santos Dumont, com uma multidão tentando tocá-lo, e embarca até o Rio Grande do Sul, terra natal de Getúlio.

Nas ruas, o povo vai fazendo manifestações, quebra-quebra e até alguns morrem. Uma multidão foi até o estabelecimento do jornal “O Globo”, no Largo do Carioca, e um grupo invadiu o local e colocou fogo nos carros. O senhor Herbert Moses, que se encontrava na redação, pegou o telefone e chamou a polícia, pois temia que colocassem fogo no depósito de gasolina próximo ao jornal. Logo, chegaram quatro soldados da polícia do Exército e quatro choques da polícia Militar. Outro grupo se dirigiu até a “Rádio Globo” para fazer depredações.

Em Porto Alegre, a cidade amanhece agitada com as manifestações. O comércio fechou às nove horas da manhã. A multidão estava alvoroçada e invadia vários estabelecimentos: o “Jornal do Rio Grande” foi destruído e depois incendiado, que nem os bombeiros conseguiram controlar as chamas; o “Diário de Notícias” teve os seus móveis retirados e colocados em uma fogueira; a “Rádio Farroupilha” ardeu em chamas e, como os bombeiros já estavam cansados e fazendo patrulha em outros locais, ameaçava desabar em cima do viaduto Otávio Rocha.

Em Recife, a população parecia não acreditar que Getúlio Vargas tinha morrido. As atividades pararam, como a do Clube da Lanterna, e as pessoas começaram a sair às ruas. Para manter a paz e conter os ânimos exaltados dos manifestantes, foram convocadas as forças do ar, da terra e do mar. Em Belo Horizonte, Juscelino Kubitschek falou emocionadamente sobre o suicídio de Vargas.

Populares paulistanos organizaram passeatas de protesto e conduziam faixas, com os dizeres: “Silêncio, o Brasil está de luto”, “Hoje, às 15 horas, reunião na Praça da Sé”, entre outros. O PTB (SP) fez um ronda pelas principais fábricas e chamou os operários para um comício de homenagem póstuma.

Mortes também vão ocorrer nos protestos, como, por exemplo, em Sergipe. O Diretório Municipal de Aracaju do PTB organizou, em uma terça-feira, uma passeata que contemplou os bairros operários da cidade. Depois disso, a passeata chegou ao seu lugar final, a Praça Fausto Cardoso, onde estava um palanque do partido. Os aparelhos do som do carro estavam sendo transferidos para o palanque, em que muitos oradores iriam discursar.

Começa o comício com várias personalidades e uma delas é Leônidas Dantas (54 anos). Ele é um getulista e, sendo assim, a população o chamou para prestar uma homenagem. Conhecido como Rei Momo, ele foi até o local e fez o seu discurso. Quando terminou, no palco subiu uma pessoa chamada Lídio Paixão e decidiu falar sobre os acontecimentos recentes. Porém o seu discurso gerou uma insatisfação por parte dos ouvintes que decidiram expulsar ele de onde estava.  A multidão começou com empurrões e pontapés, para depois formar um contingente de pessoas que o lincharam.

Ao seu lado estava João Ribeiro do Bonfim (36 anos) que ficou atônito ao ver o linchamento, mas não conseguiu ver os autores de tal barbaridade. Um guarda civil, Renato Augusto Martins (40 anos), viu de longe – na porta do Palácio do Governo, Praça Fausto Cardoso – uma multidão fazendo algazarra.  Então, ele decidiu ir cumprir os deveres de um policial. Quando chega, deparou-se com Lídio Paixão agonizando. Ao ver o corpo estendido no chão, logo chamou o seu colega, guarda José Bispo dos Santos, e pediu a este que chamasse um carro para levar o ferido ao hospital. Depois de várias negações, aparece uma pessoa (nome não identificado) e leva de carro o ferido para o Hospital Cirurgia.  Quando chegou nesse local, eles viram que o homem ainda estava vivo. Mas é obvio que não resistiu e morreu. Tudo isso aconteceu no dia 24 de agosto de 1954, às 11h30min.

Ver uma multidão linchando até a morte um opositor de Vargas, nos leva a ter certo repúdio. Mas, em 24/25 de agosto de 1954, não se aceitava oposição e crítica ao ex-presidente. A grande maioria dos seus inimigos tentou se esconder e esperar a turbulência passar. Como de praxe, após a morte de qualquer pessoa, todos visam elogiar e não ousam lembrar o lado ruim de alguém. A morte parece que esconde os nossos piores defeitos, e nos transforma em “bons homens”. Não se deve olhar o suicídio de Vargas com os olhos de hoje, pois não temos a sensação viva daquele momento, isto é, não estamos exasperados e nem chorando. A raiva, o choro, enfim, as emoções se foram, restando apenas os relatos de agosto de 1954.

(…)


Fonte: O Repórter

Deixe um Comentário!