Blog do Mailson Ramos

Cunha não é o único problema da Câmara

Cunha não é o único problema da Câmara

Cunha não é o único problema da Câmara – Foto: J. Batista / Câmara dos Deputados

Os deputados querem ‘asfaltar’ a era Eduardo Cunha, passando por cima do período em que ele presidiu a Câmara. Isso não resolve nada.

Desde a renúncia, o nome de Eduardo Cunha se tornou fonte de desgaste; para dialogar com algumas bancadas, candidatos precisaram negar peremptoriamente o ex-presidente da Câmara, muito mais vezes do que Pedro um dia negou Cristo.

Foi preciso até mesmo rechaçar as manobras que foram praticadas ali, sob o olhar benevolente de boa parte dos deputados, apoiadores de pautas bombas e outras tantas excrescências do repertório cunhista.

Miro Teixeira, por exemplo, falou com ímpeto daquele novo momento em que a Câmara dos Deputados precisava mostrar seu valor, seguindo as recomendações de entidades da sociedade civil.

É como se os parlamentares fossem outros e não os mesmos. É como se a Câmara não fosse a mesma que no último 17 de abril protagonizou um espetáculo de circo mambembe transmitido para o mundo todo.

Alguns deputados não se esqueceram das máximas bíblicas e das referências aos familiares; mas o que eles não se esqueceram de fato foi de passar por cima de Cunha como se ele jamais tivesse presidido aquela Casa.

Por trás de todo discurso existe uma ideia impregnada: os deputados querem fazer crer que o único problema da Câmara dos Deputados era o seu presidente; que agora tudo será lindo e lúdico como nos contos de Charles Perrault.

Tudo teria um final feliz não fosse Eduardo Cunha o rei da barganha e uma granada ambulante quase sem pino. A vitória de Rodrigo Maia é uma clara declaração de guerra da Câmara ao seu ex-presidente.

Atirado aos leões, como Daniel, Cunha pode responder de maneira tempestiva; governistas fazem das tripas coração para conter os arroubos de um homem que sente a lama bater em seu pescoço.

Parece cada vez mais claro que Temer tenta se afastar e isolar o Cunha nos espaços jurídicos, cuidando de sua defesa, para que não contamine a discussão sobre o impeachment.

Mais cedo ou mais tarde, esta estratégia delicada pode se tornar uma bomba. Antes, porém, os últimos sectários de Cunha tentarão salvá-lo da cassação com manobras na CCJ.

E o Brasil vai crer, a partir de hoje, que Rodrigo Maia é uma renovação na política brasileira. Dentro da Câmara 150 pedem a Deus todos os dias para o Cunha jamais delatar.

Como pode ser outro um parlamento que convive com a sombra de um deputado que tem a grande maioria dos pares nas mãos?

O conto de fadas, o idílico, o utópico tópico “nova Câmara” só se aplica para quem não conhece a política. Logo estarão todos andando pelas mesmas sendas de antes.

Deixe um Comentário!