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Mídia brasileira x mídia internacional: o golpe

Mídia brasileira x mídia internacional: o golpe

Mídia brasileira x mídia internacional: o golpe – Foto: NP

A disparidade das coberturas jornalísticas entre a mídia brasileira e a mídia internacional, sobretudo dos grandes jornais europeus, mostra como a nossa imprensa aderiu ao golpe.

Durante mais de um ano, o golpe contra a presidenta da República foi tramado nas instâncias particulares de políticos da oposição. Não é segredo para ninguém que, após o desembarque do PMDB do governo, a conspiração seguiu livre tendo como sede principal o Palácio do Jaburu, residência do vice-presidente Michel Temer. Em qualquer outra democracia do mundo, esta movimentação deveria ser interpretada como um golpe político. A mídia brasileira, entretanto, convenceu-se com os vernizes institucionais impostos ao processo de impeachment e ignorou solenemente a engenharia conspiratória contra o governo de Dilma Rousseff.

Naturalmente o processo de impeachment seguia nas mãos dos mais ferrenhos adversários do governo – na Câmara e depois no Senado – onde, não pela acusação formal de ter assinado decretos de créditos suplementares (as pedaladas), mas porque deveria ser retirada do poder a qualquer custo, Dilma foi destituída do seu poder em horrendos espetáculos de votações que atraíram a atenção do mundo. O final do processo e as fantasmagóricas apresentações (especialmente dos deputados na votação do impeachment) foram o estopim para a participação da mídia internacional na narrativa do golpe aqui no Brasil.

No dia seguinte à votação na Câmara dos Deputados (18/04), com a aprovação da admissibilidade do processo de impeachment ao Senado, houve uma sensação de torpor na grande mídia brasileira. O que deveria ser um dia de manchetes garrafais, estampas e capas simbólicas, produção de sentido sobre o fato histórico, foi apenas um dia de silêncio. É que o comportamento dos deputados naquela sessão escancarou o que muita gente já desconfiava: o golpe, urdido nas alcovas do poder, era somente uma forma de trazer de volta os velhos caciques políticos num governo interino comandado pelo vice-presidente Michel Temer.

E foi sob esta perspectiva que a mídia internacional viu o golpe. E o condenou de forma objetiva desde o primeiro momento até então. Os grandes jornais da Europa, sensivelmente citados pela mídia nativa, não hesitaram em chamar a Câmara dos Deputados de ‘assembleia de bandidos’. A palavra impeachment, de origem inglesa, pouco foi utilizada, em contraponto à palavra coup (golpe). O jornal britânico The Guardian atacou inclusive a Rede Globo, por sua cobertura parcial dos fatos; o americano The New York Times mostrou o tom de parcialidade da emissora dos Marinho na cobertura das manifestações favoráveis e contra o impeachment.

Quando o afastamento de Dilma se tornou um fato irremediável e assumiu a presidência interina o vice Michel Temer, a mídia internacional atentou para o ministério formado, em sua totalidade, por homens brancos; nenhuma mulher e tampouco nenhum negro. Boa parte deles tem envolvimento na Lava Jato e em pendências judiciais das mais diversas ordens. A parcialidade da mídia brasileira, denotada na cobertura jornalística, foi sintomática, na primeira entrevista do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, ao Fantástico, da TV Globo. A âncora Poliana Abritta não hesitou em mostrar o seu entusiasmo e desejar boa sorte ao novo ministro no final da entrevista. A isenção e o distanciamento jornalístico às favas.

Quando convocou as manifestações como forma de civismo, a TV Globo sabia aonde chegariam os pedidos de impeachment e o descontentamento da população com o governo petista; quando divulgou as gravações de conversas entre Lula e Dilma, sabia que tipo de conflagração criaria; quando narrou de forma seletiva os fatos de delações premiadas com foco intenso no PT, sabia o modelo de aversão política que desenvolveria nos seus adversários; quando concedeu mais tempo à cobertura das manifestações favoráveis ao impeachment e ignorou solenemente as manifestações de esquerda (chamadas em seus telejornais de encontros de entidades sindicais e partidos de apoio ao governo), a Globo impunha sobre a opinião pública a sua própria opinião.

E sendo o maior grupo de comunicação deste país, a Globo começou a reagir à cobertura internacional, garantindo que houve lisura no processo, que o STF o chancelou, enfim. Lá fora, entretanto, a presidenta Dilma Rousseff é vista não como uma vítima do processo, mas aquela que luta bravamente pela democracia. A mídia internacional ocupa o foco e a narrativa que a mídia nativa ignora. A construção viciada de uma narrativa concede base, aqui, a um governo ilegítimo. Como foram ilegítimas as razões pelas quais se autorizou o pedido de impeachment. O Brasil continua pagando caro por uma mídia que, depois de 52 anos do golpe militar de 1964, fechou os olhos deliberadamente para um novo golpe. Pobre do Brasil não fosse a internet.

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