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O papel da imprensa na queda de João Goulart

O papel da imprensa na queda de João Goulart

O papel da imprensa na queda de João Goulart – Crédito: Reprodução

Do CPDOC-FGV, um breve relato do envolvimento da imprensa na deposição do presidente João Goulart, em 1964. Situação de Jango muito se assemelha à atual situação de Dilma.

Durante o governo de João Goulart (1961-1964), a imprensa foi um dos vetores da divulgação do fantasma do comunismo, uma das principais justificativas para a deposição do presidente. Ao mesmo tempo, propalou a existência de um caos administrativo e participou da divulgação de que era imperiosa a necessidade do restabelecimento da ordem através de uma intervenção militar.

Entretanto, após a renúncia do presidente Jânio Quadros em 25 de agosto de 1961, a imprensa defendeu a posse de Goulart, mesmo não demonstrando confiança na sua capacidade de governar o país. Nesse período, a imprensa ainda se pautava por um comportamento partidário, ou seja, refletia os interesses ideológicos dos partidos políticos, embora não fosse sustentada por eles. O debate político conduzido pelos partidos de maior penetração nacional dominou o espaço de todos os jornais de grande circulação.

A maioria dos jornais comerciais – como Correio da Manhã, Jornal do Brasil, Última Hora, A Noite, Correio Brasiliense e Zero Hora – manifestou-se contra o veto dos ministros militares que pretendia impedir a ascensão de Goulart à presidência. De outro lado, O Estado de S. Paulo e O Globo se opuseram à posse. O jornal paulista chegou mesmo a se manifestar a favor da convocação das Forças Armadas para impedir que “as forças subversivas” chegassem ao poder.

A crise política levou à formação da Rede da Legalidade no dia 27 de agosto, após a ordem do ministro da Guerra, Odilio Denis, de lacrar a Rádio Gaúcha e a Rádio Farroupilha, emissoras que vinham dando cobertura à posição de defesa da posse de Goulart. O governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, requisitou a Rádio Guaíba, que permanecia no ar, e tornou-a a emissora oficial do estado, sob a jurisdição da Secretaria de Segurança Pública do estado. A Rede da Legalidade contou com mais de 100 emissoras de rádio em todo o país e transmitia diretamente do Palácio do Piratini, sede do governo gaúcho, marchas militares, conclamações, apelos e informações sobre as negociações que se desenvolviam entre o Congresso e os militares. A Rede da Legalidade teve influência decisiva na tomada de posição da população em favor da continuidade democrática.

A garantia da posse de Goulart por meio de uma solução de compromisso sob um regime parlamentarista teve amplo apoio da imprensa, das estações de rádio e da incipiente televisão brasileira. De um modo geral, a imprensa defendeu uma alternativa estritamente legal.

Mas essa posição alterou-se rapidamente devido à forte radicalização política que marcou todo o governo Goulart, com uma escalada de greves, movimentos dos baixos escalões das Forças Armadas e com uma taxa de crescimento econômico em queda e elevados índices de inflação. Esse momento político assistiu também a um acirramento da Guerra Fria, o que contribuiu para exacerbar as posições ideológicas em conflito. A esses fatores se juntaram as ambigüidades do governo no encaminhamento de soluções para os problemas básicos com que se defrontava o sistema político. Tudo isso minou os apoios que o governo detinha e despertou uma oposição crescente da grande maioria das forças que compunham o espectro político. A imprensa foi se posicionando ao lado dos grupos e movimentos que seu opunham ao governo constitucional, vindo a se constituir no principal portador da mensagem contra a permanência de Goulart no poder.

Poucos jornais ficaram ao lado de Goulart, destacando-se entre eles a Última Hora, jornal que tinha grande penetração no meio sindical e estudantil, e o Diário Carioca. O Semanário, um dos órgãos mais representativos na veiculação de ideias e propostas comprometidas com a defesa dos interesses nacionais brasileiros, também apoiou o governo Goulart e denunciou, com alguma antecedência, a preparação do golpe militar. O jornal Novos Rumos, órgão semioficial do Partido Comunista Brasileiro, manteve igualmente posição favorável às medidas implementadas pelo governo e às reivindicações dos suboficiais militares e dos sindicatos.

O Comício das Reformas, ocorrido no dia 13 de março de 1964, e o levante dos marinheiros, no dia 25 de março, levaram o Jornal do Brasil, o Diário de Notícias, o Correio da Manhã, e outros jornais a intensificar a campanha contra Goulart. O editorial de primeira página do Jornal do Brasil, da edição de 29/03/1964, lido nos quartéis, conclamava o Exército a manter a legalidade e o estado de direito e colocava o presidente da República na ilegalidade. Os editoriais do Correio da Manhã dos dias 31 de março (“Basta”) e 1º de abril (“Fora”) tiveram grande repercussão junto à população, uma vez que este jornal carioca era visto como um jornal menos envolvido no clima de crescente radicalização.

Após a derrubada de Goulart, foi implantada a censura aos meios de comunicação e teve início a perseguição a lideranças políticas, sindicais e intelectuais. Alguns jornais, como o próprio Correio da Manhã, começaram imediatamente a se distanciar dos novos detentores do poder e a denunciar as arbitrariedades cometidas pelos militares.

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