Opinião

Presença de Getúlio – Clóvis Senna

Presença de Getúlio - Clóvis Senna

Presença de Getúlio – Clóvis Senna – Crédito: Reprodução

 

O jornalista Clóvis Senna define o que representou a presença de Getúlio Vargas na construção de um país mais justo para os pobres e trabalhadores do Brasil.

Em fins de 1964 dois espetáculos marcaram a resistência artística ao regime udenomilitar que se abatera sobre o país – Opinião, de Oduvaldo Viana Filho, no Teatro de Arena da Rua Siqueira Campos, em Copacabana, e O Homem do Princípio ao Fim, de Millôr Fernandes, em Ipanema, e formado de poesia de Lorca, trechos do Eclesiastes, Salmos, Shakespeare, do discurso de Lincoln, da Carta Testamento de Getúlio. No palco, Fernanda Montenegro e Sérgio Brito se revezavam. O ponto alto do espetáculo era a leitura da Carta por Sérgio Brito, com o rosto de Getúlio projetado em slide ao fundo. O palco mergulhava num silêncio total, para explodir ao final. E Sérgio, para o sucesso de seu trabalho, soube dar à leitura uma entonação de carta, tranquila, e não de comício, conforme a equivocada impostação de Paulo Gracindo na peça Vargas, de Ferreira Gullar e Dias Gomes: mais gestos que conteúdo.

Ocorre que os golpistas de 64 eram todos anti-getulistas, portanto entreguistas de nossa economia. O que então fizeram? Proibiram a leitura da Carta naquele espetáculo. O grupo excursionou pelo país. Na hora da Carta, aparecia apenas o slide ao fundo, com Sérgio Brito, de óculos, olhando para o texto, durante os dois minutos da hipotética leitura, em silêncio.

É que a Carta incomodava, como incomoda e continuará a dar bofetadas em todos os equivocados e traidores do país, através dos tempos. Os jovens de hoje quase não conhecem Getúlio. Durante o regime de 64, passou a sair uma literatura desfiguradora daquele estadista, e com a anistia de 1979, enquanto os escritores chamados brazilianists retornavam aos Estados Unidos, os chamados trotskistas e stalinistas caboclos, também incomodados com o vulto daquele notável brasileiro, retomaram o papel de fazer-lhe guerra à memória.

No Brasil antes de Getúlio, o trabalhador não tinha férias nem aposentadoria. A jornada de trabalho era ao gosto do patrão. A mulher não votava e o voto era a descoberto, às vistas do fiscal do governo. A Questão social? Essa um “caso de polícia”, conforme expressão do presidente Washington Luís, e os artistas tinham, todos, de ser registrados na polícia.

Getúlio significou a virada disso tudo; é o enfrentamento com as oligarquias; Getúlio é comício, é a mulher votando e sendo eleita, é o direito à indenização, às férias e à jornada semanal de trabalho; é o concurso para ingresso no serviço público.

As oligarquias do café-com-leite apelidavam-no, desdenhosas, de Pai-dos-Pobres; os fascistas; fortíssimos à época, consideravam-no comunista e os comunistas o pixavam de fascista, e ainda de querer fundar uma república sindicalista. Nada disso; Getúlio não seguia receitas estrangeiras e sua inspiração foi sempre o Brasil e seu povo.

Getúlio incomoda a tal ponto que tanto as forças do regime de 64 caracterizadas pela Rede Globo quanto uns ditos esquerdistas se irmanaram na campanha contra a construção, no Rio, pelo governo Brizola, do Memorial Getúlio Vargas, isto enquanto setores paramilitares dinamitavam, em Porto Alegre, o monumento à Carta. Afinal a carta é pensamento, é idéia, é pensamento vivo, e isso perturba os que pretendem tapar o sol.

Infeliz do país que precisa de heróis, diz Brecht. Pode não ser verdadeiro, mas esse pensamento é um achado. E Getúlio Vargas vem muito a propósito, justamente porque vivemos numa época de ausência de estadistas. O Brasil precisa de heróis, e necessariamente aflora a figura multifacetada de Getúlio, o estadista que trouxe para o poder a semana de Arte Moderna, que criou as primeiras universidades, instituiu a legislação trabalhista, fundou siderúrgicas, a Eletrobrás, a Petrobrás, Alcalis, Bancos do Nordeste, da Amazônia, o BNDE, a Previdência Social, e que, com sua famosa e derradeira Carta, deflagrou a tomada da consciência dos países e povos do Terceiro Mundo.

Inimigos, é claro, Getúlio teve. Mas não entre a classe trabalhadora, sobretudo entre os humildes. Seus inimigos eram os setores alienados: aqueles que tinham matriz mental em Moscou, em Washington, Roma e Berlim. Getúlio era o nacionalista, a despertar o povo brasileiro para as suas potencialidades imensas, a fazer o brasileiro no Brasil.

Daí a identidade entre Getúlio e Villa Lobos. Convém notar que Villa não era a estátua de hoje, e sim um músico abrindo caminho e inspirado nas coisas e sons do povo brasileiro. Não poderiam ser maiores as afinidades entre o estadista e o mais notável de seus músicos. Daí a notícia da presença d e Getúlio ser motivo de o campo do do Vasco ficar superlotado, bem como o Pacaembu e por último o Maracanã. E tinha-se de ir cedo, a fim de ser assegura um lugar, Comício com Getúlio era garantido sucesso. A legislação eleitoral da época permitia – não havia o casuísmo domicílio eleitoral – e Getúlio foi eleito, ao mesmo tempo, deputado e senador por vários. Estados. E não se diga que Getúlio apelasse, descesse o nível. Isso nunca. Sua oratória sempre foi de alto nível e num tom ameno, sincera à cuca e ao coração das pessoas. Deferente de seu adversário, general Juarez Távora, líder da UDN-militar, que falava dando murros na mesa.

E porque os extremos se encontrassem, enquanto a UDN, dona do dinheiro e dos meios de comunicação da época no país, fazia campanha para enlamear o presidente, os comunistas pixavam muros com Abaixo Getúlio. Afinal todas as a alienações sentem despeito, porque o Brasil enfim tivera um estadista de verdade, e Getúlio Vargas preenche todo um século.

Clóvis Senna, jornalista político durante muitos anos em Brasília, é hoje escritor e poeta. O texto foi escrito para o jornal Brasil Hoje, em junho de 89.

Fonte: PDT

base-banner22