Opinião

Os vários olhares sobre Getúlio

Os vários olhares sobre Getúlio

Os vários olhares sobre Getúlio – Crédito: Reprodução

 

Getúlio Vargas foi uma grande figura política. Isso é fato. Mas ele ocupou o poder em diferentes épocas e situações. Como compreender as várias facetas de um grande homem como ele?

Cinquenta anos depois de sua morte, Getúlio Vargas continua presente no imaginário da política brasileira. A publicação, em 2004, do livro do jornalista Flávio Tavares, O dia em que Getúlio matou Allende (Rio de Janeiro, Record, 2004), é certamente mais uma contribuição para essa permanência. Algumas observações valiosas de Flávio Tavares sobre o poder, a liderança, o jeito de agir de Getúlio se referem exatamente às questões que se mostram desafiadoras para o entendimento do personagem. Nas palavras de Tavares, Getúlio foi o “homem mais poderoso do Brasil, amado por muitos milhões e odiado por outros milhões – e por isso, mais poderoso ainda, pois foi capaz de se apoderar do amor e do rancor dos demais”. Seu poder, quase ilimitado, vinha acompanhado da solidão na presença da corte e de seus aduladores. Getúlio se matou “pelo jogo do poder e por tudo poder, num gesto político, no exercício de sua inteireza de líder, acima inclusive do cidadão comum” (p. 24). E acrescenta: “Tinha um jeito labiríntico de fazer as coisas. (…) O seu populismo consistia nisso: fazer o que o povo queria e pedia. Mas, antes, induzir o povo a querer (e pedir) o que ele, Getúlio, pensava e queria. Talvez esse fosse o dom supremo de sua sensibilidade social, popular e nacional, que fez dele um líder” (p. 51).

Interpretar Getúlio, lançar diferentes olhares sobre ele, decifrá-lo, já foi tentando por muitos autores, inclusive pelos pesquisadores que “cuidam” do seu arquivo, depositado no CPDOC da FGV. Será possível decifrar Getúlio Vargas, esse homem que nunca se expunha – como pôde ser constatado quando da publicação de seu diário, que para desapontamento de muitos informa muito pouco ou quase nada de seu íntimo, de sua subjetividade?

Uma linha de interpretação de Getúlio vai buscar em sua origem e formação as raízes de sua ação política. O Rio Grande do Sul, território de fronteira disputado no período colonial por portugueses e espanhóis, teve sua ocupação estimulada pela metrópole portuguesa, que distribuiu sesmarias onde se formaram estâncias de gado. Nessa terra emerge a figura do gaúcho – o homem e seu cavalo, nômade, livre, libertário. Tais qualidades, exacerbadas, produzem o caudilho, condutor de homens e chefe político. Do isolamento da vida na estância, decorreria o paternalismo; da proximidade dos chefes com os mais pobres, o trabalhismo. Em consonância com essa versão, segundo a qual o meio define a vida social e política, tem-se a construção de uma genealogia de caudilhos. Ela começa com Júlio de Castilhos, passa por Borges de Medeiros e chega a Getúlio Vargas. Nessa trilha, a do castilhismo, os políticos seriam marcados tanto pelo autoritarismo e pelo gosto do poder quanto pela probidade na administração dos bens públicos.

Outras interpretações enfatizam não tanto a genealogia política de Vargas, mas sua geração. A atuação de Getúlio como pacificador do Rio Grande do Sul é considerada representativa de uma nova geração que marcou a história do estado e do país no pós-1930. Dela fizeram parte, além de Getúlio Vargas, Oswaldo Aranha, Flores da Cunha, Lindolfo Collor, João Neves da Fontoura, Maurício Cardoso, Batista Luzardo, entre outros. Se todos esses pertenceram a um mesmo grupo, cabe ainda buscar explicações para o papel maior, dentro dele, de Getúlio Vargas.

Getúlio é então apresentado como uma figura diferente dos demais, é o homem extraordinário. Oswaldo Aranha era o mais gaúcho; Getúlio, o mais “mineiro”, ou seja, tinha um comportamento político mais ambíguo. Além da sua “mineirice”, outro traço que remete à sua diferença: Vargas foi um silencioso, num país de oradores; frio, num meio de emotivos; era um homem misterioso, discreto, solitário…

Para falar de Getúlio Vargas, quase todos os autores começam ou acabam mencionando Maquiavel. Virtú e fortuna, segundo Maquiavel, são conceitos-chave para se dar conta da ação política do indivíduo, tema estudado desde o Renascimento. A virtú é a “qualidade do homem que o capacita a realizar grandes obras e feitos”. É a força de vontade, a motivação interior, o élan que induz o homem a enfrentar a fortuna. Esta significa o acaso, o destino cego, o fatalismo, a necessidade natural, o curso da história. O homem de ação, ou seja, o homem político, se move entre essas duas forças. A fortuna apresenta a oportunidade que, sem a virtude, seria desperdiçada; a virtude, sem a ocasião, seria inútil. As qualidades do homem político têm a ver com sua capacidade de apoderar-se da oportunidade, não ficar sujeito às surpresas do acaso.

É a partir dessa fundamentação que a morte de Getúlio pode ser apresentada como “virtuosa”. Se é comum encontrar os atributos excepcionais do herói na sua origem, é igualmente possível confirmá-los pelo seu fim. O suicídio aparece então como ato de heroísmo. Ali Getúlio vira o herói – aquele que está entre os deuses e os homens –, que doa sua vida. Esse fim altera a visão do passado, corrige qualquer outra versão anterior. E é daí que sua vida pode ser apresentada como saga, como aventura, como a travessia do Brasil rural e atrasado para o Brasil industrial e moderno.

“Na saga de Vargas, a virtude moldou a fortuna” diz Luiz Eduardo Soares. O que isto quer dizer? Getúlio estava acuado pelas denúncias do “mar de lama” no Catete, atingido em sua honra e em seu poder. Ao se matar, em 24 de agosto de 1954, conseguiu reviver politicamente e sobreviver a seus adversários. Com seu suicídio e sua Carta-testamento, voltou a ser agente do processo histórico.

O povo, destinatário do gesto, se sente redimido como o foi pelo sacrifício de Cristo. A morte provoca um sentimento de fraternidade, já que o povo experimenta simbolicamente um sentido de unidade. Soares prossegue, tratando a morte – ou o calvário – de Tancredo Neves, o presidente eleito que não chegou a tomar posse, como o avesso do martírio de Vargas. Tancredo é visto como joguete do destino, e não senhor da própria morte. Getúlio, por sua atividade, Tancredo, por sua passividade; Getúlio, por obra da virtude, Tancredo, por desígnio da fortuna, remetem ao paradigma cristão. Ambos, por seu sofrimento, expiam nossas culpas; por caminhos análogos e opostos, ambos prometem a redenção do povo. As cerimônias fúnebres que ambos mereceram foram consagrações populares, vividas como verdadeiras celebrações religiosas do pacto mítico fundador da identidade nacional.

Lucia Lippi Oliveira/FGV

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