Opinião

O mito Getúlio Vargas

O mito Getúlio Vargas

O mito Getúlio Vargas – Crédito: Reprodução

 

O julgamento da história, tão aguardado por Vargas, viria para coloca-lo entre os homens públicos mais referenciados deste país; um estadista incomparável, o pai dos pobres, um homem do povo.

O presidente Getúlio Vargas visita um orfanato. Petrópolis (RJ), fev. 1941. Getúlio Vargas é, com toda a certeza, um dos maiores nomes do cenário político brasileiro do século XX. Sua presença e força políticas atravessaram as décadas de 1920, 1930, 1940 e 1950, instalando-se como referência inquestionável após o suicídio, ocorrido em 24 de agosto de 1954. Vargas, durante essa longa trajetória, foi sendo identificado tanto por suas surpreendentes qualidades de estadista – coragem, sabedoria, ousadia –, como por suas características de “homem comum” – simpatia, malandrice, simplicidade –, facetas que o aproximavam ao mesmo tempo dos grandes líderes de seu tempo e do povo brasileiro, o “seu” povo. Ficou conhecido como o “pai dos pobres”, o protetor dos trabalhadores, mas também como o presidente em cujo governo trabalhadores foram presos, torturados e até mortos.

O presidente Getúlio Vargas conversa com um paralítico na presença de dois oficiais. Petrópolis (RJ), 1939. Mitos políticos são construções modernas, possíveis quando a política se torna uma atividade central para uma sociedade e quando as “massas” se tornam um ator necessário, porém temido. Mitos políticos, especialmente quando assumem a forma de uma personalidade, cumprem o papel de guias para o povo, devendo ser facilmente reconhecidos e seguidos – nesse sentido Getúlio Vargas foi um grande mito, construído no contexto das décadas de 1930-1940, quando o Brasil se tornava uma sociedade urbano-industrial, entrava na era dos meios de comunicação de massa e não podia mais desconhecer os graves problemas socioeconômicos que inquietavam sua população havia décadas. O presidente Getúlio Vargas na tribuna do Jóquei Clube. Rio de Janeiro (DF), 1938. Mitos políticos exigem intensa e sofisticada propaganda governamental, mas é preciso que o que está sendo propagado faça sentido para a população receptora, vinculando-se à sua experiência de vida, seja direta, seja indiretamente. A construção de um mito, portanto, não é mera obra de mistificação. Por isso, a trajetória política de Vargas é uma excelente oportunidade para pensar sobre as relações entre representantes e representados, sem aceitar a ideia recorrente de que o povo brasileiro é “ingênuo” e continuamente enganado por políticos “cínicos”, que defendem apenas interesses pessoais.

O presidente Getúlio Vargas e membros de seu ministério por ocasião da parada comemorativa do Dia da Pátria. Rio de Janeiro (DF), 07 de setembro de 1951. Examinemos a história da construção do mito Vargas. Ela certamente começou com a Revolução de 1930. Nesse momento, Vargas era apenas um de um conjunto líderes, embora fosse aquele que iria assumir a chefia do Estado. Pode-se então verificar que a figura de Vargas começa a ser trabalhada como exemplo de presidente quando ele ainda é o chefe do Governo Provisório (1930-1934) e, a seguir, o presidente constitucional do país (1934-1937). A partir daí, a propaganda em torno de seu nome e das realizações de seu governo não param de aumentar. Entretanto, foi só após o golpe do Estado Novo que a preocupação com a construção do mito Vargas chegou a seu auge. Como o regime era autoritário, a intensa propaganda se beneficiou muito da censura, dirigida a todos e a tudo que pudesse ser considerado danoso ao regime e a Vargas. Durante o Estado Novo, cresceram lado a lado propaganda e repressão, quer esta se manifestasse através dos instrumentos da repressão física direta, quer assumisse as feições, nem sempre muito sutis, da censura e também da autocensura.

Exposição de livros durante o Estado Novo. Rio de Janeiro (DF), entre 1938 e 1945. Diretamente envolvidos no esforço de divulgação da figura de Vargas, estavam o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), o Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio e também o Ministério da Educação e Saúde. Um tripé que apontava para a centralidade das políticas sociais do regime, mas que também se preocupava em veicular mensagens que causassem impacto pela qualidade e pela diversificação dos recursos a que recorriam. Esses órgãos do aparelho de Estado revelam claramente o tipo de imagem que Vargas desejava criar junto à população. Ela devia ser a de um presidente especialmente atento à situação dos trabalhadores do Brasil e, com igual ênfase, à situação das mulheres/mães, dos jovens e das crianças, que garantiriam o futuro do país. Dessa forma, Vargas materializava um modelo de presidente voltado para a criação e a implementação dos novos direitos sociais do povo brasileiro, que constituíam o coração e o sentido da cidadania social, então preconizada. Esse presidente queria inaugurar um novo tempo nas relações entre Estado e Sociedade no Brasil: elas deviam ser diretas – através de cartas e de cerimônias cívicas –, sem quaisquer intermediários. Povo e presidente deviam estar próximos, deviam confiar um no outro.

Durante o cortejo fúnebre no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro (DF), 25 de agosto de 1954. Não é casual, por conseguinte, que as ameaças à liderança de Vargas, em meados dos anos 1950, tenham sido entendidas pela população brasileira, especialmente pelos pobres e trabalhadores, como uma ameaça ao presidente que havia enxergado o povo e aos direitos sociais aos quais seu nome sempre esteve ligado. Também não foi por acaso que esse povo chorou e se revoltou com a notícia de seu suicídio, atacando os antigetulistas e surpreendendo a muitos com sua raiva e sua dor. Para lidar com a política e os mitos políticos, é preciso entender que eles não cabem em esquemas simples e maniqueístas, e que sempre perdemos muito ao tentar fazer isso. Vargas é, nessa perspectiva, um exemplar mito político.

Ângela de Castro Gomes/FGV

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