Opinião

FHC agora dá uma de radical para entrar na onda

FHC agora dá uma de radical para entrar na onda

FHC agora dá uma de radical para entrar na onda – Crédito: Reprodução

 

Ricardo Kotscho repercute as palavras do ex-presidente FHC que pediu para Dilma renunciar como “gesto de grandeza”. Até ele quer dar uma de radical.

Pegou muito mal. Sempre tão preocupado com sua biografia e de como vai passar para a História, mais do que com qualquer outra coisa, FHC deixou de lado o bom senso e a moderação habituais para dar uma de surfista radical ao pedir a renúncia da presidente Dilma Rousseff.

O que deu no ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, do alto dos seus 84 anos, para sair dos confortos das palestras e dos diagnósticos sociológicos, para entrar de cabeça na rinha política, onde já pontificam os Aécios, Cunhas, Bolsonaros e Caiados?

São muitas as possíveis razões para explicar esta guinada, mas a principal me parece ser o medo de perder o bonde, as manchetes e o controle do alto tucanato, mais dividido do que nunca.

Depois de lançar nas redes sociais o repto para a presidente renunciar ou reconhecer seus erros, FHC convocou Alckmin e Aécio para uma conversa em seu apartamento de Higienópolis, com o objetivo de “alinhar o discurso” do PSDB.

Missão impossível, já que as estratégias dos dois são opostas e quem conhece Dilma sabe que ela não é mulher de renúncias.

Inconformado até agora com a derrota nas eleições presidenciais, o senador mineiro Aécio Neves quer porque quer novas eleições já, seja a que pretexto for, para aproveitar o recall de outubro e a sua liderança nas pesquisas divulgadas este ano. Até saiu às ruas e subiu num carro de som no domingo para se apresentar como candidato desde já.

Mais mineiro do que ele, o governador paulista Geraldo Alckmin não tem pressa. Quer empurrar a procissão até 2018, na esperança de superar até lá as crises do seu governo nas áreas de segurança e abastecimento de água, mostrar serviço e tornar-se um nome nacionalmente conhecido.

Os dois pré-candidatos tucanos, na verdade, já estão em campanha, o que deixou FHC bastante preocupado com as divisões internas. Para completar, correndo por fora, o eterno candidato José Serra já anda abanando as asas para os lados do PMDB.

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Num eventual governo Michel Temer, caso a crise se agrave ainda mais, ele estaria disposto a assumir o papel que foi do próprio Fernando Henrique Cardoso, como ministro da Fazenda, no mandato tampão de Itamar Franco, após a queda de Fernando Collor.

Desta vez, a presidente Dilma respondeu na lata, ao dizer que FHC e seus tucanões só querem “pegar carona” e “tirar proveito” das manifestações de rua.

Em outras ocasiões, o ex-presidente tucano até saiu em defesa da legitimidade do mandato de Dilma e da sua honra pessoal, argumentando que ela não é a principal responsável pela crise ética que estamos passando, mas apenas uma vítima das práticas do “lulopetismo”.

Como se fosse um editorialista do Estadão e dos demais porta-vozes do Instituto Millenium na mídia amiga dele, FHC tenta afastar Dilma de Lula, que é o verdadeiro alvo do momento.

Tirar o ex-presidente Lula da vida pública e impedir que ele possa voltar nas eleições de 2018 é o único objetivo que une a oposição partidária e midiática, mais até do que o afastamento imediato de Dilma Rousseff.

Um possível terceiro mandato de Lula, hoje menos provável, é tudo o que FHC não quer nesta guerra particular que os dois travam para ver quem vai aparecer mais bonito nas fotos da História.

Em sua defesa, o tucano pode alegar que o petista fez a mesma coisa com ele, em 1999, no primeiro ano do seu segundo mandato, quando enfrentava índices de rejeição ao seu governo semelhantes aos de Dilma. Na mesma linha do que FHC faz hoje, disse Lula na ocasião, usando quase as mesmas palavras: “Renúncia é um gesto de grandeza e FHC não tem esta grandeza”.

Vida que segue.

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