Paulo Moreira Leite: Dilma e o ‘New York Times’

Paulo Moreira Leite: Dilma e o'New York Times'
Paulo Moreira Leite: Dilma e o ‘New York Times’ – Crédito: Lula Marques/Agência PT

 

Paulo Moreira Leite esmiúça o editorial do jornal americano ‘The New York Times’ que abriu fogo contra a oposição ao governo Dilma.

Num país onde a visão externa costuma ser referência para tantas pessoas, é impressionante que o editorial do New York Times sobre a situação política brasileira tenha tido uma repercussão tão pequena. Trata-se de um assunto que o jornal conhece muito bem.

Nos últimos 40 anos, ocorreram duas tentativas de afastar um presidente norte-americano do posto. Uma delas, de Richard Nixon, foi considerada exemplar. A outra, contra Bill Clinton, fracassou – e todos se felicitam pelo fato do país ter evitado um vexame.

Mas vamos ao Brasil. O mais influente jornal norte-americano fez afirmações essenciais sobre a corrupção, a Lava Jato, o futuro de Dilma e a capacidade da oposição administrar o país. As principais:

  • “As investigações não encontraram evidencias de atos ilegais por parte dela (Dilma Rousseff)”.
  • “Enquanto ela (Dilma) é sem dúvida responsável por políticas e muitos erros que prejudicaram a economia, não há crimes que justifiquem seu afastamento (“impeachable offenses”, no original).
  • “Forçar a saída de Dilma Rousseff de seu posto sem nenhuma evidência concreta de crime (“wrongdoing”) traria um sério prejuízo a uma democracia que tem se fortalecido por 30 anos, sem a compensação de nenhum benefício.”

O NYT também dá uma cotovelada nas oposições: “nada sugere que qualquer um de seus líderes teria um desempenho melhor na economia.”

Ao tomar uma posição tão clara, no dia seguinte a mais um domingo de protestos, o jornal confirma que a disposição de evitar uma ruptura institucional de qualquer maneira não se limita a grandes empresários brasileiros. Também é a perspectiva mais adequada do ponto de vista da principal potência econômica mundial, o que não deixa de ser significativo quando se recorda do papel de Washington na deposição de Goulart, em 1964, e no prolongado apoio a uma ditadura que durou 21 anos.

O próprio Barack Obama teve uma atitude semelhante durante a visita de Dilma a Washington, ao rejeitar, durante uma entrevista coletiva, uma visão de país de segunda classe sugerida numa pergunta da correspondente da TV Globo.

Para quem finge que olha os brasileiros de cima e e exibe uma postura de desprezo pelas conquistas promovidas no país nos últimos anos – em particular de 2003 para cá – essa visão é particularmente incômoda.

Não custa recordar, também, as duas tentativas de afastar um presidente eleito nos EUA. Os dois casos explicam a cautela do jornal.

Richard Nixon perdeu o posto em 1975. Naquele momento, ficou claro que a cumplicidade de Nixon com a ação de espionagem no edifício Watergate, que provocou sua queda,nada teve a ver com raciocínios dedutivos que sempre levam a alguma versão do domínio do fato. A parceria com os criminosos estava gravada em diálogos registrados pelo sistema de segurança da Casa Branca. Não eram depoimentos depois dos fatos. Eram conversas em tempo real. Quando a Suprema Corte determinou, por unanimidade, que Nixon entregasse as fitas que poderiam incriminá-lo, o presidente preferiu renunciar.

Em 1998, faltaram apenas 13 votos no Senado para Bill Clinton perder o mandato num processo de impeachment, encaminhado por um conselheiro jurídico da Casa Branca que pretendia encerrar seu mandato. Iniciado por um juiz da direita do partido republicano, que o próprio Clinton havia promovido numa tentativa de conciliação com os rivais, o argumento da investigação era moral: o presidente dos Estados Unidos faltara com a verdade num depoimento sobre suas relações extraconjugais com Monica Lewinsky, estagiária da Casa Branca. Não havia crime contra Clinton, pois o assunto dizia respeito a sua privacidade – mas dizia-se que falar mentiras, ainda mais sobre um fato ocorrido na Casa Branca, era uma falha incompatível com o cargo.

Seria muita ingenuidade acreditar, porém, que a democracia brasileira será garantida por um editorial do New York Times. Nem pelo apoio declarado por grandes empresários brasileiros.

Como disse Luiza Erundina em entrevista ao Espaço Público, na TV Brasil, que foi ao ar ontem e será reprisada no domingo a partir das 23 horas, a força que pode sustentar Dilma e defender a democracia não se encontra na justiça nem na Fiesp nem no Congresso nem no NYT – mas no povo.

Como Erundina explicou, é muito positivo que Dilma procure o entendimento com empresários e com a oposição no Congresso. Faz parte de suas responsabilidades como presidente.

Mas ela não poderá sustentar-se sem recuperar o apoio dos trabalhadores e da população pobre, a base de seu governo.

Prefeita de São Paulo entre 1989 e 1992, Erundina atravessou quatro anos de pressão na capital do Tucanistão. Enfrentou o Tribunal de Contas, uma oposição adorada pelos grandes jornais e o próprio PT, que não tinha receio de colocar-se como oposição quando achava conveniente. Mas sobreviveu a todas tentativas de tomar-lhe o cargo porque nunca deixou de comunicar-se com o povo e deixar claro que fazia o possível para melhorar a sorte de seus eleitores.

É um conselho mais do que oportuno – essencial. Após a reunião bem sucedida com movimentos sociais, na semana passada, a presidente só tem a ganhar com conversas mais frequentes com as lideranças que falam aos brasileiros que lhe garantiram o segundo mandato.

Caso contrário, o editorial do New York Times e o apelo ao bom senso do empresariado nada mais serão do que atos elegantes e gentis — mas de curta duração.

Como diziam tantos líderes daquele período em que a presidente e tantos de nós eram jovens, este discurso pode se revelar um simples “canto de sereia” para iludir marinheiros famintos e desorientados em alto mar.

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