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O brado retumbante na Barra

O brado retumbante na Barra

O brado retumbante na Barra – Crédito: Band

 

As manifestações na Barra, em Salvador, tiveram o mesmo ímpeto de todas as outras pelo Brasil afora: expor o ódio político e o apartheid das classes. Mais uma vez não se viu um negro, senão aquele que com um cartaz nas mãos expunha sua desvalorização pessoal dentre os burgueses.

Em Salvador, onde a maioria esmagadora da população é de origem negra, não se viu um só negro a desfilar na Barra entre os manifestantes de pele clara; não é uma constatação inédita porque em março e abril deste ano já houveram fatos parecidos. Os transeuntes que desfilavam sobre a calçada de um dos bairros nobres mais conhecidos da capital baiana mostravam cartazes e expunham sua ojeriza ao PT, à presidenta Dilma e ao ex-presidente Lula. Nos bairros mais humildes de Salvador, a população mal sabia o que estava acontecendo na Barra não fosse pelos plantões da TV Globo. Não, eles não faziam questão de se integrar àquela gente elitizada e que certamente os rechaçaria de sua companhia.

O jornal Correio estampou em sua capa a manchete ‘Brado retumbante’, uma alusão à letra do hino nacional e ao número de manifestantes presentes na Barra. Não fosse o Correio pertencente à família Magalhães, uma das oligarquias que mais se fortaleceram durante a ditadura militar, haveria menos motivos para questionar a matéria assinada pela jornalista Clarissa Pacheco. Existe aí muito mais do que uma tendência, uma escolha, um lado; a imprensa brasileira, toda ela, regional ou nacional, trilha por caminhos similares que desembocam na aversão aos governos petistas.

Ainda no sábado, encontrei um amigo na rua que me apresentou a manchete do Correio tratando sobre a não antecipação do 13º para os aposentados. Indignado, ele esbravejava como se não fosse mais receber a bonificação; ponderei a situação. Não custava explicar que o país atravessa uma crise e o governo precisa reajustar as contas. Um jornal tem todo o direito de explorar uma notícia, mas não pode fazer mau uso dela. Imaginei quantos e quantos aposentados, assim como meu amigo, foram levados a analisar a notícia apenas por sua manchete. Desolado ele dizia: “Agora acabou! A mulher ferrou com a gente!”

Assim a grande e pequena imprensa tem mobilizado um discurso contra a presidenta da República. Em Salvador, tinha manifestante idolatrando Sérgio Moro assim como um dia idolatrou Joaquim Barbosa; durante um bom tempo se disseram apartidários, mas têm apoiado o senador Aécio Neves em sua cruzada pelo golpe. Não dá para entender como eles são tão dissimulados; diante das câmeras são totalmente contrários à intervenção militar, à tomada forçada do poder, mas basta uma movimentação e lá estão estendendo faixas “intervenção já”.

O correio afirmou que o boneco do presidente Lula, inflado em Brasília, foi um dos destaques das manifestações. O boneco tinha listras horizontais em preto e branco simbolizando uma farda de prisioneiro. Esta imagem, segundo o jornal baiano, foi compartilhada nas redes e repercutiu o momento da política nacional em que um ex-presidente é achincalhado publicamente. O Lula continua sendo o alvo de todos eles. Vão vociferar, espumar de ódio, negar-se como brasileiros e fugir para Miami; vão desfilar mais umas quinze vezes até 2018 até se convencerem que Dilma só deixará o poder para ser sucedida por quem a antecedeu.

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