Opinião

Agosto, desgosto – Luiz Carlos Azedo

Agosto, desgosto – Luiz Carlos Azedo

Agosto, desgosto – Luiz Carlos Azedo – Crédito: Fundação Getulio Vargas/FGV

 

Muitos acreditam que Getúlio tramou sua própria morte ao longo da crise de agosto de 1954, o mês mais turbulento da República, que só não resultou numa ditadura militar devido ao suicídio

Associado a tragédias e catástrofes, agosto é um mês malvisto pelo povo — e temido pelos políticos. A superstição começou na França, por causa da famosa Noite de São Bartolomeu, em 24 de agosto de 1572, na qual foram massacrados os líderes protestantes convidados para o casamento real que selaria a paz entre católicos e huguenotes, seguidores do teólogo protestante João Calvino. Catarina de Médici, rainha católica, ordenou o extermínio em massa dos calvinistas, que durou meses. Estima-se entre 70 mil e 100 mil mortes, dependendo do credo de quem fez as contas.

No Brasil, a superstição ganhou muita força por causa do suicídio do presidente Getúlio Vargas, um episódio dramático, que é considerado por muitos um divisor de águas da nossa política: em 24 de agosto de 1954, por volta das 8 horas, Getúlio Vargas deixou seu quarto no Palácio do Catete em direção ao gabinete de trabalho. Voltou com um objeto no bolso do paletó do pijama. Às 8h30, deu o tiro no coração que traumatizou a vida nacional.

O episódio está registrado em livros de história e documentários, rendeu um dos melhores romances de Rubem Fonseca (Agosto) e uma interpretação magistral de Tony Ramos no filme Getúlio. Está sendo recontado, com riqueza de detalhes, no último volume da trilogia de Lira Neto, Getúlio (1945-1954), Da volta pela consagração popular ao suicídio, cuja pré-venda já começou nas grandes livrarias, pela internet.

Muitos acreditam que Getúlio tramou sua própria morte ao longo da crise de agosto de 1954, o mês mais turbulento da República, que só não resultou numa ditadura militar devido ao suicídio. “Foi um golpe de mestre. Um cálculo político muito benfeito”, avalia a historiadora Maria Celina Soares D’Araújo, intérprete da Era Vargas. Duas semanas antes, Vargas havia entregado rascunhos de sua carta-testamento ao amigo José Maciel Filho, redator de seus discursos.

Os políticos da União Democrática Nacional (UDN), principalmente o jornalista Carlos Lacerda, eram os principais adversários de Vargas. À esquerda, era combatido também pelo líder comunista Luís Carlos Prestes. Lacerda defendia a deposição de Vargas desde as eleições de 1950: “[Vargas] não deve ser candidato à Presidência. Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar”.

Vargas havia sido deposto em 1945, após 15 anos no poder. Eleito com 48,7% dos votos, em 3 de outubro de 1950, foi empossado em 27 de janeiro do ano seguinte. Voltou “nos braços do povo”, com um projeto nacionalista: criou a Petrobras, o BNDES e projetou a Eletrobras, mas enfrentou muitas denúncias de corrupção. “Patriarca do roubo” e “gerente-geral da corrupção no Brasil”, acusava Lacerda, que apelava aos quartéis

A crise

Com o Manifesto dos Coronéis, a conspiração ganhou força. Os militares queriam mais investimentos nas Forças Armadas, melhores salários e a saída do “comunista” João Goulart, que mais tarde seria deposto da Presidência no golpe de 1964. Vargas afastou Jango e, uma semana depois, no1º de maio, encampou a mais radical proposta do ex-ministro: aumento de 100% para o salário mínimo, que passaria a ser igual ao soldo de um segundo-tenente. Também aumentou a contribuição dos empresários para a Previdência.

A crise tornou-se irreversível em 5 de agosto. Na portaria de seu prédio, em Copacabana, Carlos Lacerda sofreu um atentado, no qual foi baleado no pé esquerdo. O major-aviador Rubens Vaz, que o acompanhava, foi assassinado. Conduzidas pela Aeronáutica, as investigações sobre o “crime da Rua Tonelero” incriminaram Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal do presidente. Lutero, filho de Vargas, e Benjamim, o Bejo, foram postos sob suspeita de serem os verdadeiros mandantes.

Vargas já havia derrotado um pedido de impeachment proposto pelo líder udenista Afonso Arinos; menos de dois meses depois, viu suas bases políticas e militares virar fumaça. No dia 22, os brigadeiros da Aeronáutica pediram sua renúncia. No Senado, no dia 23, o vice-presidente Café Filho anunciou o rompimento. Às 3h do dia 24, o desfecho da reunião ministerial de emergência que convocara foi sua despedida do poder.

Aceitou a licença provisória, mas, ao fazê-lo, evocou a própria morte: “Determino que os ministros militares mantenham a ordem pública. Se conseguirem, eu apresentarei o meu pedido de licença. No caso contrário, os revoltosos encontrarão aqui dentro do palácio o meu cadáver”. O presidente Getúlio Vargas já havia decidido o que fazer ao amanhecer: “Saio da vida para entrar na história”, escreveu. Virou mito.

Fonte: Blog do Azedo/Luiz Carlos Azedo

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