Blog do Mailson Ramos Mídia

O Ibope mede o imensurável

O Ibope mede o imensurável

O Ibope mede o imensurável – Crédito: Reprodução

 

O Ibope reflete a sanha da imprensa em predeterminar os postulantes ao cargo de presidente. Não importa que com isso a presidente da República, em pleno exercício de poder, seja desrespeitada.

A presidente da República Federativa do Brasil é Dilma Vana Rousseff, eleita no dia 26 de outubro de 2014, com mandato vigente iniciado em 2015 e que se concluirá em dezembro de 2018. Estas informações podem não fazer jus ao contexto atual, mas é, inexoravelmente, a realidade. Acontece que o Ibope, muito atrelado aos ditames da mídia sensacionalista, investe em perspectivas surreais: o instituto, a pedido de O Estado de S. Paulo, divulgou pesquisa sobre as eleições presidenciais. Isso mesmo, amigos leitores. Eleições presidenciais.

Nada mais causa espanto na política brasileira. Porque nem os prazos dos mandatos são respeitados e nem as figuras que os ocupam. A imprensa – quando lhe convém – mal respeita a titularidade dos cargos ou as regras institucionais que asseguram as pessoas sobre eles. É simples assim. Basta encomendar uma pesquisa fajuta, sobre um cenário que é mais a plataforma ficcional do que uma realidade e criar um fato para referendar um partido ou uma figura política. E que se dê nome aos bois: é de novo Aécio Neves o queridinho da imprensa.

No cenário irreal e fictício de mais uma pesquisa do Ibope, Aécio venceria Lula. O sonho da vitória aecista coloca a imprensa em lençóis de seda. Nos devaneios tórridos e nas sendas oníricas em que divaga o sonho da vitória do Aécio a imprensa continua criando factoides. E os cria sem nenhuma consideração com aqueles que os assistem ou leem. O Ibope funciona aí como um suporte, assim como o Datafolha e outros congêneres que se prestam ao serviço de medir o imensurável.

Na verdade a política dos institutos de pesquisa tem sido mais discutida do que a política em si. Nas últimas eleições eles erraram e erraram feio, para todos os lados e com margens escandalosas. O pior é que por trás das pesquisas há sempre um indício de favorecimento. Não convém discutir o resultado desta pesquisa pela explicação inicial deste artigo, mas se colocada em xeque ela mostra muito mais erros do que supõe nossa experiência política. A pesquisa do Ibope é, nestes dois aspectos, um erro. Um erro dissonante. Não nos atrevamos a adentrar nos meandros da relação Globo e Ibope.

O que se pode extrair de tudo isso, com frieza, é que para a imprensa a cadeira da presidência está vazia. Este é o perigoso sentido da vacância de poder e que pode nos levar a uma condição extrema de ataque à democracia. Porque assim foi em 1964. Revendo uma matéria de O Globo (2 de abril de 1964), onde a manchete diz: “Fugiu Goulart e a democracia está sendo restabelecida. Empossado Mazzilli”, podemos entender um pouco da sanha da imprensa por fazer tomar cargos. A pesquisa do Ibope reflete esta sanha. Foi um uníssono coro midiático de divulgação do resultado como se não tivéssemos uma presidente da República em pleno exercício de poder. Foi, sobretudo uma falta de respeito.

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