Blog do Mailson Ramos

Eduardo Cunha (agora) é oposição

Eduardo Cunha [agora] é oposição

Eduardo Cunha [agora] é oposição – Crédito: J. Batista

Depois da delação premiada de Júlio Camargo, Eduardo Cunha admitiu que se integrará à oposição. Mas afinal: quando foi que ele defendeu o governo da presidenta Dilma Rousseff?

A política é mesmo um jogo. Um jogo discursivo. Na manhã da última sexta-feira (17), o presidente da Câmara dos deputados, Eduardo Cunha, protagonizou um dos momentos que deflagram a importância do discurso na esfera política. Ele, a partir de então, faria oposição ao governo da presidenta Dilma Rousseff. Qualquer desavisado há de questionar: mas ele algum dia apoiou o governo? A resposta é invariavelmente um não. Retornando à ideia do jogo político, Eduardo Cunha quis se fazer de vítima, uma vez soterrado pelo assédio dos jornalistas após a delação de Júlio Camargo.

Durante muito tempo ele foi o motor da crise. Estampou capas de revista, pousou em fotos opulentas sobre a cadeira da presidência da Câmara, instituiu sob sua vontade as decisões da Casa e definiu um quadrante de sectários, asseclas e aduladores para lamber seus finíssimos sapatos de couro. A imprensa o aceitou porque dele nasceria o conjunto de fissuras – políticas, econômicas e sociais – para abalar o governo em sua estrutura demasiadamente enternecida. Por um bom tempo as decisões de Eduardo Cunha pautaram as decisões institucionais da Câmara dos Deputados.

A crise institucional gravíssima é parte do seu projeto. Quando mortificou os poderes da Casa do Povo, influenciou parte do judiciário e esquartejou o poder executivo, Cunha definiu os rumos para aprovar o parlamentarismo. A escória formada pelos deputados de sua confiança seria a base primal para impor ao país uma decisão pessoal sobreposta aos interesses institucionais. Em sua ânsia inveterada por poder, ele se esqueceu do partido, das convenções, dos estatutos e das figuras icônicas sobressalentes à sua. Sua conduta deixou de ser determinista (como é próprio a todo discurso político).

Eduardo Cunha sentiu-se mais potente do que todas as instituições desta República. Mas o passado o persegue por suas ações nada lícitas. Sabe ele que a imprensa, feroz e esfomeada, vai dissecar cada pormenor de suas falcatruas; vai identificar e expor cada um dos seus deslizes. E quando não sobrar mais nada, Eduardo Cunha será cuspido e escorraçado da Casa Grande midiática. Será alijado das benesses dos grandes grupos de comunicação que, até a Lista de Janot (e depois), o colocavam como grande estadista.

O governo da presidenta Dilma Rousseff não ganhou inimigo algum; apenas caiu a máscara de um deles. O amigo leitor deve retornar à história para entender o contexto: Eduardo Cunha subiu ao palanque e deu apoio a Aécio Neves; eleito deputado, se aliou às bancadas mais conservadoras da Câmara; o planalto articulou para que ele não fosse eleito, lançando a candidatura de Chinaglia; Cunha foi diametralmente contrário a todos os projetos defendidos pelo governo e impôs ao país uma agenda extremamente conservadora. Então a questão: quando é que ele não foi oposição?

Se o Brasil necessitava de um remédio para a crise, ele deveria nascer do veneno, como são os antígenos. A delação de Júlio Camargo, como tantas outras delações que serviram como base para prender muita gente por aí, identificou a verdadeira face do presidente da Câmara. E não vai demorar muito até que o Brasil enfim enxergue a verdade. Não vai demorar até que Eduardo Cunha seja rechaçado da política brasileira e reduzido ao limbo. Não é outro lugar senão este o reservado para aqueles que ousam aviltar as instituições públicas numa República democrática em evolução como a nossa.

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