Blog do Mailson Ramos

De quando rechaçamos a política

De quando rechaçamos a política

De quando rechaçamos a política (A morte de Sócrates) – Crédito: Jacques-Louis David

 

De quando rechaçamos a política

Salvador-Ba – Existe uma constatação muito fria e nociva sobre a crise política: as pessoas não querem discutir sobre ela ou estão quase sempre prontas a mudar de assunto quando o roteiro da discussão entra pela linha da política. Não se pode ir a lugar algum sem reflexão. E o brasileiro, de maneira geral, contenta-se em deglutir aquilo que a imprensa, sobretudo a imprensa hegemônica lhe oferece todos os dias em forma de notícia. O brasileiro simples tem repetido, como papagaio, o que o massivo cartel de notícias lhe impõe; não há alternância de discurso ou uma opinião divergente. Trilha-se pelo caminho mais curto, o das manchetes.

Numa conversa franca, numa reunião de amigos num boteco, onde se fala sobre tudo e sobre todos, a política é assunto rechaçado. Alijada, ela não entra na pauta senão para referendar a crise de representatividade que assola o país. De uma coisa apenas se pode ter certeza: o martelo midiático moldou a cabeça dos brasileiros. O Partido dos Trabalhadores é repelido com virulência e não basta uma simples explicação teórica da seletividade da imprensa para acalmar os ânimos. Estamos diante de uma situação terrível de condicionamento do pensamento.

Causa espécie notar que algumas pessoas, com pouca ou nenhuma instrução, têm aderido a discursos conservadores como o da volta da ditadura militar ou de uma intervenção para tirar a presidente Dilma Rousseff do poder. Ortodoxia nas opiniões. O assunto, pouco discutido, ganha aspectos que são estarrecedores do ponto de vista da revolta. Uma explicação mais simples não define a tranquilidade do assunto: não adianta explicar que a crise econômica é fator mundial, mas adquiriu vulto no Brasil pela crise política deflagrada através da Operação Lava Jato e o recrudescimento do ataque ao partido do governo. E qualquer governo sofreria os mesmos impactos.

Não basta explicar. É preciso profundidade nas opiniões; o brasileiro é, de modo geral, avesso às discussões intricadas e, sobretudo sobre política ou religião. Nasceu daí a lenda que diz que política e religião não se discutem; não se discute aquilo que não existe. Diria uma grande professora de sociologia: “se algo existe é passível de ser estudado e, portanto, discutido”. Precisamos entender que a notícia é informação, mas ela não se autoexplica senão pelo contexto histórico, pela trilha dos acontecimentos. E como se pode repassar estas ideias às pessoas mais simples? Através do conhecimento, da escola. A educação não permite a nenhuma pessoa sair do seu estado de redução do pensamento se ela não entende que é preciso discutir sobre a vida.

É sintomática a condição do jovem brasileiro pobre quando chega à universidade: ele não sabe aprofundar assuntos, escreve terrivelmente e tem, sobre seu pensamento, uma carga negativa da submissão histórica. A academia poderá moldá-lo e retirá-lo desta marginalização de pensamento. Mas e os jovens que não encontraram esta saída? Como discutirão sobre política? Como utilizará outras armas do discurso senão aquelas que a mídia lhe martela na cabeça dia e noite? Qual é a profundidade do discurso de pessoas que não interpretam as notícias, mas as deglute inerte? Como pode o pensamento avançar se somos capazes de alijar a política de nossos assuntos cotidianos porque “ideologia é assunto polêmico e só causa atrito”?

Um governo colhe todos os frutos que plantou mesmo aqueles frutos que não vingaram de forma adequada. Os governos petistas tiveram todas as condições de promover uma revolução na educação – não aquela de que falam os hipócritas. Mas uma revolução em que o sujeito brasileiro tivesse acesso a bens culturais e não apenas a bens materiais (que são importantes), mas não concederam ao indivíduo a capacidade de pensar além do noticiário da imprensa. A tacanhice é uma desvirtuação não culpável. Mas a ausência de pensamento ou o pensamento engaiolado é uma doença terrível de nossa sociedade. E também sobre ela não discutimos. Atoleimados que somos com nossas ideologias deixamos de discutir o que é importante para o país. É preciso combater o ócio do pensamento, olhar menos para os nossos umbigos e discutir mais sobre o Brasil que aguarda as nossas decisões.

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