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A crise econômica nasceu política

A crise econômica nasceu política

A crise econômica nasceu política – Crédito: Lula Marques/Agência PT

 

A crise instalada no Brasil é de origem política, embora tenha afetado a economia.

A ambivalência da crise brasileira parece agora ter sido dirimida. Definiu-se, portanto, um foco: a crise é muito mais política do que econômica. Aliás, é preciso dizer que a crise talvez tenha sido assim desde o começo. Ela foi definida pelo enfrentamento entre as forças institucionais, pelo apocalipse midiático do esquema de propinas da Lava Jato e a criminalização do partido do governo entre todos os outros partidos envolvidos no sistema de corrupção. A crise política é abastecida diariamente porque seu combustível não cessa. Não cessa a máquina de conchavo e os reflexos da ânsia pelo poder. Enquanto o governo tenta se manter sobre uma plataforma beligerante que é a base aliada, a oposição incendeia todas as perspectivas de reação.

A crise política deve sufocar este país por muito mais tempo. E isso se refletirá na economia. O brasileiro deve pensar que com impeachment ou sem ele as perspectivas do Brasil serão as mesmas. Será igual a luta por poder. Vive-se um momento de recrudescimento do conservadorismo, do reacionarismo, do definhamento da representatividade política. Basta lembrar que um dia desses, estes mesmos manifestantes que exigiam a queda de Dilma, disseram ter perdido a confiança em Aécio Neves. Não que o senador mineiro tenha qualidades espetaculares, mas ele é o que se apresenta em oposição ao governo. Nas ruas, é quase sempre possível ver um ou outro revoltado colocando os políticos numa única e degradante posição.

E se o braseiro não é capaz de se ver representado por nenhuma das forças políticas, o que acontecerá? O Brasil corre o risco de viver uma desventura. Poderá encontrar uma saída que não satisfaça os anseios da maioria. O momento requer uma análise estratégica da política. E o que está acontecendo nas ruas não tem nada de analítico ou estratégico: é um sintomático repúdio ao governo pelos seus erros, mas, sobretudo é o reflexo do midiatismo da crise econômica. Não basta que o brasileiro sinta a crise pelo bolso. A simbologia do momento ruim deve ser transmitida diariamente e deglutida a seco não pelo bem da informação, mas porque a imprensa deve cumprir seu papel no estabelecimento das forças. E por que a sociedade não consegue dar respostas efetivas aos políticos, sem recorrer ao discurso infame e virulento da mídia ou a ideologia do “coxinha versus petralha”?

É que o brasileiro cumpre miseravelmente o seu dever de ser político; aliás, não o cumpre, imagina. Se o voto não fosse obrigatório neste país é possível que não tivéssemos representantes sentados em suas cadeiras e ocupando cargos. Diria algum desavisado que isso serviria para punir os políticos e mostrar que todo o poder democrático emana do povo. Mas imaginemos o caos que seria instalado caso as instituições públicas não tivessem representantes eleitos. É possível concordar que a obrigatoriedade ao voto não faz do brasileiro um conhecedor da política. Ele não é sequer um partícipe deste movimento. O simples fato de gravar na urna um voto não e o bastante para determinar sua participação efetiva na política; ele participou apenas do processo eleitoral.

O brasileiro pressente o momento, mas não entende a sua dinâmica. Não entende que as forças envolvidas nesta queda de braço são antigas e indissolúveis; elas tem se conformado à passagem do tempo, às mudanças na política brasileira e continuam a suprimir a vontade popular, manipulando-a. Para estas forças não há restrição de relacionamento com políticos de qualquer ideologia. No Brasil, onde a maioria das pessoas não sabe em quem votou na eleição passada, não são apenas os políticos os culpados pela crise. Se ousássemos discutir num patamar superior ao pueril discurso da dupla PT/PSDB; se ousássemos enfrentar o discurso midiático com nosso conhecimento e não com o conhecimento que eles nos impõe; se ousássemos enxergar a Brasília dos conchavos e não a que nos exibe a institucionalidade aí entenderíamos que a crise nasceu muito mais política do que econômica.

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