Blog do Mailson Ramos

Conservadorismo: estamos regredindo ao passado?

Conservadorismo: estamos regredindo ao passado?

Conservadorismo: estamos regredindo ao passado? – Crédito: Reprodução

As ações de uma sociedade cercada por conservadorismo costumam representar um risco à evolução do pensamento, portanto, uma ruptura sintomática dos ideais de democracia, onde os direitos e os deveres são iguais para todos os cidadãos.

Noutro dia um deputado federal chamado Laerte Bessa, vinculado ao PR do Distrito Federal, fez uma declaração muito própria de um conservadorismo criminoso: ele disse ao jornal The Guardian, da Inglaterra, que num futuro bem próximo seria possível descobrir no útero as tendências criminosas de um feto. Ele aposta que a redução da maioridade penal será mantida ano após ano e reduzida dos dezesseis para quatorze, depois doze, dez e enfim. Isso denota claramente um retorno da sociedade brasileira a um conservadorismo clássico que perdurou em nossa sociedade no início dos anos de chumbo, entre o final da década de 1950 e meados da década de 1960. O refrigério das forças democráticas parece ter durado alguns anos após a redemocratização e depois sucumbiu ante a reorganização do poder hegemônico, conservador em sua essência.

O conservadorismo de nossa sociedade não está exposto apenas em ideias ou palavras; ele é muito mais concreto e visível do que podemos pensar. E no Brasil está sempre revestido com o ideário de ordem social. Há alguns meses, em São Luís, no Maranhão, um jovem foi capturado tentando assaltar um bar. Ele foi amarrado a um poste e agredido até a morte. No mês de fevereiro, antes do carnaval, doze jovens foram brutalmente assassinados por policiais no bairro do Cabula, em Salvador. As vítimas, ao que parece, não tiveram tempo sequer de se explicar. A impressão é que os direitos individuais foram reduzidos a pó. Não somos uma sociedade capaz de debater estes fatos porque eles reagem contrariamente a um poder instituído pelo conservadorismo. E parece que ser conservador, no Brasil, adquiriu outros aspectos que não somente os da personalidade.

A jornalista Rachel Sheherazade, do SBT e Jovem Pan, tem representado, ao lado de outros dinossauros do reacionarismo, um eco ensurdecedor entre aqueles que concordam com suas proposições. Em 2013, ela comentou o fato de populares terem amarrado um bandido num poste nas ruas do Rio de Janeiro. E disse que quem tivesse piedade daquele bandido deveria leva-lo para casa e adotá-lo. Sheherazade sabia que não falava ao vento. A amplitude do seu discurso era condizente com os receptores da mensagem. É preciso entender que a formação deste pensamento monolítico se reflete na política, na cidadania, nas relações sociais, nas relações interpessoais, na comunidade em que se vive, na escola, no núcleo familiar. Aquele viçoso sentimento de liberdade política, originado no pós-militarismo, parece agora soterrado muito abaixo de nossas consciências.

O Estado brasileiro, por sua vez, não cumpre devidamente as suas obrigações. Mas não será o governo o responsabilizado por lotar os presídios de jovens criminosos. O que está por trás da redução da maioridade penal é muito mais do que conchavo político; é a cessação de dos direitos civis. A infinidade de jovens que se esgueiram pelas ruas entregues ao mundo do tráfico é assustador; o brasileiro, de certo modo, se precaveu contra a desgraça que as drogas representam: é muito importante que ninguém do meu círculo esteja envolvido no tráfico e quanto ao restante, não me interessa. Não estamos nem um pouco preocupados com a questão estrutural e sistêmica do crime se a nós ele não afetar diretamente. E isso é parte crucial de um conservadorismo que não deixa enxergar a essência de todo o mal. Os jovens infratores que têm servido ao tráfico conservam consumidores de sua predileção: são os jovens ricos que sobem os morros para abastecer suas festinhas com drogas e sustentar o crime organizado.

No Brasil, a palavra se antecipa ao pensamento. Talvez por isso algumas pessoas – como eu – prefiram escrever. Alinhando e realinhando ideias é possível dizer coisas que a fala não privilegie. No púlpito da Câmara dos Deputados tem se ouvido muita coisa importante, mas nela ecoam algumas vozes predeterminadas a relembrar um passado de conservadorismo que o Brasil não quer de novo viver. Entre deputados que transitam na Câmara com fardas militares e outros com chapéus bem ao estilo dos coronéis nordestinos deve existir algumas figuras capazes de defender a democracia e não os seus interesses privados. Devemos também ser capazes de propor um diálogo contra este reacionarismo, contra o conservadorismo e a favor de um poder estabelecido que não sirva apenas a interesses hegemônicos. O Brasil precisa de respostas urgentes e não serão outros os cidadão a concedê-las senão nós, hoje.