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A visita do Deputado Amadeu

A visita do Deputado Amadeu
A visita do Deputado Amadeu – Crédito: Reprodução
 A visita do Deputado Amadeu

Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.

O Deputado Carlos Amadeu retornou a Tapera do Iaçu e foi recebido com direito a som de charanga, fogos de artifício e uma infinidade de sequazes a lhe adular nos primeiros momentos de volta à casa. Não era sempre que o nobre parlamentar voltava à cidadezinha, mas desta feita resolveu mostrar que era de fato saudoso: como forma de agradecer àquela turba de descamisados a lhe esperar na estação de trem, pediu ao capataz da fazenda que matasse dois garrotes dos mais gordos e entregasse a carne ao povo da cidade. Ordenou também que se fizesse um baile naquela noite para que ele pudesse apresentar a esposa Lucinda aos seus conterrâneos. E saiu da estação carregado nos braços do povo em direção à praça principal onde fez um breve discurso.

– Povo de minha querida Tapera do Iaçu! Um homem não pode viver sem suas raízes; não deve viver sem a lembrança de sua gente; e cá estou, com humildade, a reencontrar todos vocês para falar de nossas vitórias. Esta cidade está crescendo! Estamos no caminho certo para o futuro.

O povo aplaudia sem parar. O prefeito, pertencente à mesma legenda do Deputado Amadeu, o recebeu de braços abertos em frente à prefeitura. Era tanta felicidade, tanta alegria, tanto júbilo pela volta daquele filho amado que na cidade não se fava sobre outra coisa: senhoras abandonaram a tacanhice e o peitoril de suas janelas para acenar ao recém-chegado; os servidores da prefeitura deixaram o trabalho e espiavam das janelas das instituições públicas; os comerciantes escancararam as portas de seus estabelecimentos, aguardando que o deputado entrasse em cada um para gastar uns trocados. Enquanto uns diziam: “Puxou ao finado pai, o Coroné Abílio”, outros replicavam: “Não. Puxou foi à mãe, Dona Constância”. E seguiram até a igreja acompanhando o cortejo público de ‘sua excelência’.

O padre, muito solícito, agradeceu a construção da sacristia e aproveitou para incentivar o parlamentar a sempre visitar sua cidade natal. O Deputado Amadeu partiu para um almoço na casa do delegado, amigo seu de longa data e durante a tarde desfrutou das belezas da Fazenda Cabeça de Frade, propriedade de seu padrinho, o Coronel Villas Boas. Permaneceu por ali até a tardinha e depois retornou à cidade. Amadeu convidou a alta sociedade de Tapera do Iaçu para o seu baile, o que correspondia a duas dezenas de gatos pingados. A maioria eram os fazendeiros, os políticos da região, os secretários da prefeitura e os poucos parentes seus ainda residentes naquele fim de mundo.

O baile durou a noite inteira. Na manha seguinte, o Deputado Amadeu tomou o trem e se escafedeu mais uma vez. O prefeito, como seu porta-voz, deveria dizer que ele estava muito atarefado e regressou à capital federal. A informação do prefeito encontrou resistência entre os homens reunidos no Armazém do Juca.

– Ele foi para o Rio de Janeiro. Eu ouvi quando disse ao padre!

– Que nada! Ele foi para São Paulo.

– Ô Juca, liga o rádio aí! Deixa ver se alguém fala sobre o deputado!

Dez minutos e eis que o locutor notícia:

“O deputado Carlos Amadeu foi cassado em Brasília!”

O prefeito observou com espanto aqueles rostos sofridos e miseráveis. Fez um sinal para o Juca pedindo uma dose de cachaça. Bebeu e retrucou:

– Bem disse eu. O deputado foi cassar em Brasília!

E saiu de mansinho. O Juca desligou o rádio e, coçando a cabeça, completou:

– Eu nunca soube que tivesse caça em cidade grande…

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