Blog do Mailson Ramos

Sociedade da superexposição não cabe em si

Sociedade da superexposição não cabe em si

Sociedade da superexposição não cabe em si

Não importa mais se a exibição é de corpos lacerados, sangue ou cadáveres: a sociedade da espetacularização não cabe em si porque deseja se exibir mesmo em situações catastróficas.

A sociedade da espetacularização não cabe em si. A crise de valores que desrespeita a supremacia da privacidade e dos direitos alheios é apenas o princípio fundador de pequenos e repetitivos hábitos instalados no cotidiano. A necessidade de explorar a imagem de outras pessoas converge para o soterramento da dignidade humana, sobretudo quando a tragédia e a desgraça adquirem um status nefasto de publicidade. O assédio tem como premissa o horror, o espanto, a estranheza a ser provocada, especialmente quando estes mesmos sentimentos definem a validade da exposição. Não importa mais se a exibição é de corpos lacerados, sangue ou cadáveres: a sociedade da espetacularização não cabe em si porque deseja se exibir mesmo em situações nada convencionais.

A morte do cantor Cristiano Araújo e de sua namorada Allana Morais, no último dia 24, comoveu o país inteiro, sobretudo os brasileiros do interior, acostumados agora com a levada do sertanejo universitário. O casal faleceu após acidente de trânsito na altura da cidade de Morrinhos, em Goiás, quando o cantor retornava de um show. As imagens que retratavam aqueles últimos momentos de Cristiano eram, sem sombra de dúvidas, verdadeiros acintes à dignidade humana, mas nem por isso elas deixaram de ser registradas, inclusive por equipes dentro dos hospitais por onde transladou o paciente em sua derradeira agonia. As câmeras das emissoras de TV também seguiram o helicóptero até o hospital em Goiânia.

Mas não bastou registrar os últimos momentos. Dois profissionais da Clínica Oeste, contratada para preparar os corpos, tiraram algumas fotos do corpo do cantor, o que provocou a reação da família. A perspectiva de desvalorização da dor alheia é um nó visceral e nefasto em nossa sociedade. Porque já não se respeita mais a condição de uma família que deseja manter a privacidade de seus membros, ainda que falecidos. Ainda que falecidas as pessoas famosas são vistas como ícones. Mas é preciso entender que sobre esta iconicidade existe também a pessoalidade, a figura existencial, o ser humano repleto de sentimentos. A imagem de um corpo em evidência provoca os apelos mais necrófilos que se possa imaginar: as pessoas veem e se satisfazem com desgraça alheia.

E neste jogo de superação da imagem sobre a privacidade, a imprensa cumpre um papel preponderante. Ela é capaz de fazer vulto sobre uma notícia, escandalizar e expor aquilo que as pessoas não desejam ver. É a posse ilegítima da tragédia que pertence unicamente à família. Mas a televisão sabe, como nenhum outro meio, capitalizar as sensações de comoção e explorar o sensacionalismo. Não é por acaso que as câmeras estão sempre ligadas em busca de imagens. O que os profissionais da clínica fizeram foi muito mais do que atentar contra a ética ou um lampejo de superexposição. É o círculo vicioso da propagação determinado quase sempre pelo acesso às redes sociais; pensa-se no impacto das visualizações e quase nunca na condição vexatória que ele provoca.

É preciso tomar cuidado com a replicação de imagens no ciberespaço e ter a consciência da responsabilidade que acarreta uma publicação desmedida, especialmente quando ela diz respeito à privacidade. As câmeras podem até estar prontas para retratar momentos e fatos do dia a dia sem que com isso afetem a dignidade e a intimidade das pessoas. É como se houvesse aqui um pedido muito simples para que as pessoas, ao ver um acidente, se preocupassem em ajudar e não em registrar imagens dos corpos atirados ao asfalto. A sociedade da espetacularização não cabe em si, mas deve respeitar a particularidade de cada ser. Somente assim teremos pessoas que consideram os vivos e também os mortos.