História

Lampião: o mito do herói-bandido

Lampião: o mito do herói-bandido

Lampião: o mito do herói-bandido

Um líder para quem a história reservou uma indefinição de caráter e personalidade. Lampião divagou entre o bom da história e o ‘cão danado’ perseguido pelos ‘macacos’.

Ouvi há muito tempo a história de que Lampião matava crianças com seu punhal; outros contavam que ele era tão malvado que os cangaceiros, seus seguidores, andavam na linha com medo de contrariá-lo. A verdade é que não se pode definir a personalidade de um mito. Lampião, mesmo nas histórias mais simples contadas pelos idosos, é sempre representado como um homem de respeito. Não se pode negar que a construção do ícone foi amplificada geração após geração. E ele é este misto de herói e vilão, mocinho e bandido, vida e história.

Todo brasileiro já ouviu algum causo sobre Lampião. Quem nasceu no sertão há de ter ouvido milhares deles. Cada um reconta o que se julga verídico sobre a personalidade do Rei do Cangaço. E de todos estes enredos é possível extrair alguns aspectos muito marcantes. Lampião é sempre representado como um sujeito forte e destemido, quase um gigante. Não são apenas histórias ou fatos não comprovados. Lampião era muito mais do que um líder de bando.

Tinha a patente de capitão, mas era perseguido pela polícia; cego de um olho, mas ainda assim conseguiu enganar muitas volantes no meio da caatinga; de aparência franzina, gestos metódicos, entretanto, mobilizou com energia uma trupe de sertanejos decididos a segui-lo e fazer justiça com as próprias mãos. Na variação das interpretações foi desde um lampejo mítico até a realidade dura da vida no cangaço. Um líder para quem a história reservou uma indefinição de caráter e personalidade. Lampião divagou entre o bom da história e o ‘cão danado’ perseguido pelos ‘macacos’.

Mas o destino, capaz de contar as histórias ao avesso, determinou que Lampião encontrasse um amor. Naturalmente este amor seguiria um curso nada convencional, uma vez que a escolhida de Virgulino teria de enfrentar os mesmos obstáculos dos cangaceiros. Bonnie e Clyde do sertão. Entre balas e rajadas das volantes, rasgando-se por entre os espinhos da catingueira, dormindo sob o silêncio iminente da morte, Maria Bonita disse sim. Ela, que abandonara um casamento para viver esta história a ferro e fogo, foi a primeira a sentir o peso da vida no cangaço.

Segundo o documentário ‘O Último dia de Lampião’ de Maurice Capovilla, o Tenente Bezerra não um homem muito corajoso. Mas encarou com afinco a tarefa de exterminar o cangaço com a morte do seu maior líder. Naquelas pedras, em Angico, não ficaram somente as marcas de um extermínio. Aliás, o extermínio de Lampião não passou de uma transição de tempo e espaço: morto, ele não poderia mais ser caçado, não poderia servir a nenhum achincalhe, nem sofrer qualquer violência. Arrancando-lhe a cabeça, os oficiais cumpriram um ritual quase que de descontentamento: Lampião se transmutava em mito. Do que valia uma cabeça conservada?

Os cangaceiros que escaparam da fúria das volantes recontaram suas aventuras. A infinidade de livros biográficos sobre Virgulino Ferreira da Silva demonstram o quanto esta mitologia é acompanhada pelas gerações que se seguem. Ela se perpetua no espaço da história reservado aos corajosos cangaceiros. Eles não são tomados como herói, afinal de contas, duelaram no sertão contra a República e o Estado de Direito. Impuseram medo aos poderosos, especialmente aos grandes fazendeiros e proprietários de terras. E sempre que alguém tenta enfrentar os mais poderosos neste país acaba sucumbindo. Vide Canudos.

O Brasil talvez jamais reconheça a heroicidade de Lampião. E depois ele não precisa de reconhecimento institucional. No nordeste do Brasil há quem o relembre com satisfação, como se conta a história de Robin Hood ou de um herói incompreendido pela sociedade. Nos tempos de hoje é impossível pensar numa figura como a dele. Nos tempos de hoje é impossível pensar em qualquer tipo de herói, seja ele meio bandido ou não. Na década de 1930 o sertão teve um capitão, um líder, um mito. Angico não nos deixa esquecer.