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Dilma no Jô e o ‘complexo de vira-latas’

Dilma no Jô e o'complexo de vira-latas'
Dilma no Jô e o ‘complexo de vira-latas’ – Crédito: Verdes Mares

 

Dilma no Jô e o ‘complexo de vira-latas’

Artigo da autoria de Olavo Barros, publicado em Brasil Post.

“Precisamos da confiança do povo em si mesmo”. Em programa totalmente dedicado a ela, a presidente Dilma Rousseff finalizou com essa frase a entrevista dada ao apresentador Jô Soares, na madrugada do último dia 13.

Frase semelhante à utilizada pela presidenta está em “Complexo de vira-latas”, crônica esportiva de Nelson Rodrigues que cunhou a expressão, originalmente referente à derrota da seleção brasileira para o Uruguai na Copa do Mundo de 1950. O escritor diz que são “tragédias” como o Maracanazo que motivam uma visão inferiorizada de nós mesmos. O “Anjo Pornográfico”, como era conhecido o Sr. Nelson, escreve:

O problema do escrete não é mais de futebol, nem de técnica, nem de tática. Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo. O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas e que tem futebol para dar e vender […] Uma vez que ele se convença disso, ponham-no para correr em campo e ele precisará de dez para segurar“.

Hoje, somos o Brasil do também frustrante “7 a 1” e, seguindo essa lógica metafórica, podemos nos dizer detentores de uma série de derrotas simbólicas: a desigualdade social, o acesso insuficiente à educação e à saúde pública de qualidade, os escândalos de corrupção – no governo e até no futebol. Tantas vergonhas nos fazem olhar para fora e cobiçar outros países, que inquestionavelmente dão bons exemplos daquilo que gostaríamos de ter e de ser. Tais frustrações nos levam a crer que somos uma “república de bananas”. Aquela que, por ser o que é, nunca será o que poderia ser. Raciocínio que, confesso, tenho dificuldade de acompanhar.

Ainda que não deliberadamente, Dilma cita e se mostra alinhada ao pensamento exposto por Nelson Rodrigues. Para que o Brasil seja socialmente vitorioso, segundo ela, o problema não é só de política, nem só de economia, mas também de cultura. Parte fundamental da superação das crises, sobretudo a identitária, estaria atrelada à capacidade do brasileiro em superar seu “complexo de vira-latas”, reconhecendo em si mesmo um agente de transformação social e valorizando nosso legado cultural como patrimônio tão relevante quanto o de qualquer outro país. “Um povo que não tem esperança, também não constrói um futuro”. Poderia ser Nelson Rodrigues, mas é Dilma Rousseff.

A entrevista de mais de uma hora despontou no Trending Topics mundial no Twitter com a hashtag #DilmaNoProgramaDoJo, celebrada entre vaias e aplausos virtuais – o perfil oficial do Partido dos Trabalhadores na rede social, por exemplo, agradeceu sua militância pelo engajamento obtido.

Tamanha repercussão me faz refletir sobre a importância de Dilma dar boas entrevistas e fazer pronunciamentos, na TV, pelas redes sociais ou por qualquer outro meio de comunicação. Percebo que aqueles que votaram nela e que hoje se mostram decepcionados com os descaminhos de seu governo seguem dispostos a ouvir o que a presidenta tem a dizer.

Afinal, o que devemos exigir de uma chefe de Estado? Que se cale porque não estamos dispostos a ouvir o que alguém como ela – “Petista”, “Corrupta”, “Comunista”, “Má gestora” – tem a dizer, ou então que esclareça ao povo – e não só a seus eleitores – aonde exatamente quer chegar na condução de seu governo? Como avaliar sua figura enquanto estadista se não a escutamos? Garantir a todos o direito de se fazer ouvir, no fim, é o que importa para consolidar o senso crítico que levará a um juízo das coisas. Se não o correto, ao menos o justo.

A opção por Dilma, dentro do sistema pretensamente democrático em que vence aquele que mais votos cooptar, é acima de tudo soberana – e auditada por um órgão independente da Justiça. Até quando vamos nos desacreditar de tal forma a não confiarmos nem nas instituições, nem nos jogadores de futebol, nem em nosso próprio povo? Tenho certeza de que é a esse sentimento que Dilma e Nelson Rodrigues se referem.

Nunca é demais reforçar que, no jogo de xadrez da política brasileira, Dilma é muito mais rainha que rei: movimenta-se para todos os lados, quantas casas quiser, mas no fim das contas encurralá-la não nos levará ao “xeque-mate”. São por entrevistas como essa a Jô Soares que ainda acredito que vale mais a pena ouvirmos o que a presidente tem a dizer do que nos ensurdecermos batendo panelas. Dessa vez, não ouvi nenhuma.

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