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Bachelet, a Dilma que reage

Bachelet, a Dilma que reage

Bachelet, a Dilma que reage – Crédito: Roberto Stuckert Filho/PR

 

Bachelet, a Dilma que reage

O presente artigo da autoria de Victor Farinelli foi publicado em Rede LatinAmérica, da Carta Capital, e trata das diferentes perspectivas entre os governos de Michelle Bachelet e Dilma Rousseff.

São tantas as coincidências biográficas entre Dilma Rousseff e Michelle Bachelet – ambas foram presas e torturadas durante as respectivas ditaduras, ambas perderam eleições para vereadora, ambas passaram por dois ministérios, mas só ganharam uma eleição pela primeira vez na vida quando disputaram a presidência, e foram as primeiras mulheres a governarem em seus respectivos países, e muitas outras – que chega a ser natural que elas enfrentem simultâneas crises por casos de corrupção, como vem acontecendo durante todo este 2015.

Em janeiro, enquanto Dilma lidava com os desdobramentos da Operação Lava Jato, a presidenta do Chile via como a crise de corrupção no país, que começou afetando apenas políticos da oposição de direita, passava a envolver pessoas ligadas ao seu governo e à sua família.

Primeiro, um caso dentro de casa. Um portal chileno de jornalismo investigativo descobriu um empréstimo de mais de US$ 10 milhões, recebido por sua nora, a empresária imobiliária Natalia Compagnon. O valor foi entregue pelo Banco de Chile, maior banco privado chileno, cujo dono é o megaempresário Andrónico Luksic, um dos mais poderosos do país. O negócio, a princípio, não tem nada de ilegal, mas o fato da nora da presidente receber um empréstimo milionário não caiu bem perante a opinião pública. Sebastián Dávalos, filho da presidenta e marido de Compagnon, renunciou ao cargo de assessor cultural da Presidência – tradicionalmente ocupado pelas primeiras-damas.

Logo, foi a vez de parlamentares da Nova Maioria, coalizão de partidos que sustenta o seu governo no Congresso, serem mencionados em casos como os que eram ligados somente à direita até então: o uso de campanhas eleitorais para a lavagem de dinheiro e sonegação de impostos de grandes grupos empresariais. Bachelet defendeu a independência do Ministério Público e criou uma equipe assessora para elaborar um pacote de medidas anticorrupção, entre as quais se destacam o financiamento exclusivamente público das campanhas políticas, a perda automática do mandato e inelegibilidade para políticos condenados por casos de corrupção, a imposição de um limite de reeleições para cargos legislativos e o estabelecimento de uma nova regra para reajuste de salários de parlamentares, que impedirá que os aumentos sejam por decisão dos mesmos, entre outras.

A pressão sobre o governo não cessou com essas iniciativas – que ainda precisam ser aprovadas no Congresso – e logo surgiu outro problema. Nos primeiros dias de maio, a imprensa chilena divulgou denúncias de pressão dos ministérios do Interior e da Fazenda sobre o SII (Serviço de Impostos Internos, equivalente à Receita Federal) para evitar processar empresas ligadas ao governo. O diretor do SII, Michel Jorratt, chegou a pedir afastamento do cargo por suposto envolvimento com algumas empresas.

A resposta do Executivo não tardou. Bachelet pediu a renúncia de todos os seus ministros e realizou uma importante reforma do gabinete, embora tenha ratificado boa parte dele. Os dois primeiros que perderam a cabeça foram os ministros das pressões: Alberto Arenas (Fazenda) e Rodrigo Peñailillo (Interior). Horas depois, o SII anunciou as denúncias contra empresários e políticos, alguns ligados ou pertencentes à bancada governista.

Mas a grande notícia, em meio a todo esse clima de questionamentos que à política que acontece no Chile é que o governo não parou. Mesmo as pastas questionadas pelas denúncias continuaram atuando, e a presidenta já reafirmou, pelo menos quatro vezes este ano, que não abrirá mão da agenda de reformas impulsada desde sua vitória eleitoral.

Em 2014, foram aprovadas a reforma tributária e metade do trâmite da reforma educacional – os capítulos relativos ao financiamento das escolas de ensino fundamental e médio. Este ano, foi concluído o trâmite da reforma política, que acabou com o modelo eleitoral imposto pela ditadura em seus últimos dias. A lei vigente desde o fim da ditadura. A reforma trabalhista vai para sua fase final, buscando acabar com um dos modelos considerados pela OIT (Organização Internacional do Trabalho, ligada à ONU) como um dos mais antissindicais do mundo – talvez por isso tão elogiado por algumas vozes brasileiras. E finalmente, Bachelet anunciou para setembro o início dos trabalhos para a reforma constitucional, visando acabar com a atual carta magna, imposta em 1980 pela ditadura, e que a mandatária assegurou que terá ampla participação da cidadania, com foco para o reconhecimento dos povos originários e fortalecimento de conceitos de igualdade social e de gênero.

Nenhuma dessas medidas evitou que Bachelet tivesse uma forte queda nas pesquisas. Sua popularidade caiu a 32% segundo números divulgados no começo de maio. Mas ela não se abala, e o governo tampouco. Pelo contrário, a cada novo escândalo ela responde com uma nova medida reformista, numa agenda que já tem promovido uma quantidade importante de mudanças.

Não se trata de dizer que Michelle Bachelet é melhor que Dilma Rousseff, já que há outros elementos em questão – por exemplo, o de que a maioria da base parlamentar que apoia a chilena é formada por políticos realmente de esquerda, bem diferente do conservadorismo que domina até a bancada governista no Brasil –, e porque só o futuro dirá qual das estratégias dará mais resultados, mas é inevitável perceber que pelo menos a chilena, ao reforçar o ímpeto reformador do governo, manteve o apoio do seu eleitorado mais cativo, que defende o governo apesar dos pesares.

Algo que no caso do Brasil é mais difícil de perceber. Pelo contrário, quem acompanha o noticiário e as redes sociais se depara facilmente com petistas perguntando porque a presidenta Dilma não reage ao avanço da onda conservadora, se cala após a aprovação de medidas contra os trabalhadores ou desiste da tradicional cadeia nacional no Dia do Trabalhador. Não é difícil perceber o pessimismo, mesmo em setores mais fiéis.

Diz a lenda que, após sua vitória eleitoral em 2010, Dilma se dedicou ao livro Bachelet en Tierra de Hombres, que narra a experiência da chilena como primeira mulher presidenta em seu país – o primeiro mandato dela foi entre 2006 e 2010. Muitos de seus eleitores em 2014 esperam que volte a se inspirar em sua amiga para reagir à crise institucional brasileira.

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