Blog do Mailson Ramos

João Paulo II: político, comunicador ou religioso?

João Paulo II: político, comunicador ou religioso?

João Paulo II: político, comunicador ou religioso? – Crédito: Il Quotidiano

Em abril de 2014 o site Opinião & Contexto publicou artigo de Mailson Ramos sobre o Papa João Paulo II. O período era muito propício àquela temática, uma vez que se aproximava o momento da canonização do papa polonês. Hoje, 18 de maio de 2015, se estivesse vivo, João Paulo II completaria 95 anos. Papa, esportista, filósofo, poeta, diplomata, comunicador e político, Karol Wojtyla entrou para a história por ser também um grande líder.

Os vaticanistas jamais conseguiram definir o perfil de Karol Wojtyla. Talvez nunca o definam. Mas para descobrir quem realmente foi o Papa João Paulo II, é necessário regressar até o arcebispo Karol que organizava piqueniques e estudos bíblicos com os jovens da cidade de Cracóvia, na Polônia.  Nesta época estava dourando-se em teologia pela Universidade Jagelônica; também foi neste período, justamente quando se encontrava com jovens a descer o rio de caiaque, recebeu de Stanislaw, seu secretário, o recado que Paulo VI o havia feito cardeal. O prelado jamais deixaria os jovens e por várias vezes estes mesmos jovens o visitariam em Roma, no Palácio Apostólico.  Dali a pouco tempo seria eleito papa, quebrando uma continuidade de pontífices italianos de mais de 400 anos.

Político e diplomata o Papa João Paulo II não se considerava. Inclusive rechaçava qualquer notícia que o colocasse em tal posição. Responsável pela queda do comunismo no Leste Europeu, especialmente na Polônia, sua terra natal, o papa não escondia de ninguém sua admiração por Lech Walesa, sindicalista do partido Solidariedade que enfrentaria o regime comunista até o fim. A queda do muro de Berlim condizia com os ideais de Wojtyla por uma Europa mais unida também no campo político e, sobretudo no religioso.

Em 1993, em sua homilia, após uma missa em Agriento o papa gritou contra os mafiosos italianos para que se arrependessem dos seus pecados porque “um dia viria o juízo de Deus”. São tantos os exemplos da posição política de Karol Wojtyla (mesmo que ele nunca a tenha aceitado como tal) que será difícil encontrar uma personalidade do século XX com sua desenvoltura e influência.

Os correspondentes da RAI, TV pública italiana, acostumaram-se a chamá-lo de o papa comunicador. E desde o princípio, quando o protodiácono finalizou o anúncio da eleição de Karol Wojtyla: “[…]qui sib nomem impossuit Ionnes Paulus” (que escolheu o nome de João Paulo), a multidão e os jornalistas perceberam a forte atitude do polaco. Escolhia o nome do pobre italiano Albino Luciani (João Paulo I), morto após 33 dias de pontificado. Era mais do que uma homenagem; era a continuidade de uma visão administrativa da Igreja voltada para a aplicação do Concílio Vaticano II.

Seis dias depois, na solene missa de início de pontificado, grita aos fiéis: “Não tenhais medo!” A Igreja, acostumada aos pontífices reclusos no plano simbólico da Cidade do Vaticano, começava a se acostumar com um homem forte, vindo do leste, e que faria viagens a países os mais diversos, numa métrica que corresponde a 1,1 milhão de km ou trinta voltas em torno da Terra.

Mais que comunicador era um religioso. Stanislaw Dziwisz, seu secretário pessoal durante quarenta anos, dizia que João Paulo II era capaz de rezar em qualquer lugar, com qualquer barulho, diante de qualquer multidão, de modo que ele comparava esta concentração a um transe. Sabe-se hoje que o papa se flagelava. Quando foi atingido por um projétil disparado pelo turco Ali Agca, em 1981, repetia ainda sobre a caminhonete: “Por que eu? Por que eu?” Não obstante, tão logo se recuperou foi, contra a vontade dos cardeais, à prisão de Rebibbia visitar seu algoz a quem chamava de irmão. Em 2000, quando se pensava que o esvaído João Paulo II renunciaria ao papado, ele fez um discurso aos cardeais dizendo que conduziria sua missão até o final da vida.

Em 27 de abril de 2014, João Paulo II foi canonizado. Joaquim Navarro-Vals, porta-voz do papa ao longo de todo o seu pontificado insiste em dizer que a Igreja católica não o faz santo; Wojtyla é santo por sua própria vivência de fé. Talvez seja a melhor definição para um homem da sua grandeza. Muitos dos conflitos das décadas de 1980 e 1990 foram evitados ou mesmo tiveram a intervenção pacificadora do papa. Durante certo tempo pouco se falou sobre a negociação para o fim da Guerra das Malvinas. João Paulo II enviou emissários para intervir entre Argentina e Inglaterra. Ele foi um dos responsáveis pelo fim deste conflito e continua aparecendo como um dos grandes homens do século XX.