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Dilma Rousseff e as sardinhas – Alex Hercog

Dilma Rousseff e as sardinhas

Dilma Rousseff e as sardinhas – Crédito: Abril

 

Dilma Rousseff e as sardinhas – Alex Hercog

Alex Hercog é de uma linhagem promissora dos Relações Públicas forjados e formados na Universidade do Estado da Bahia; politizado e com um olhar sempre voltado para o social, traz em seus textos a perspectiva de um Brasil que precisamos enxergar. É notadamente um analista social e uma referência para todos aqueles que almejam compreender a política em seus aspectos mais intrínsecos. O site Nossa Política publica seu artigo nesta oportunidade com a certeza de que nossas páginas se tornam muito mais importantes.

Quando um governo anuncia um corte bilionário no orçamento, não necessariamente significa erro de planejamento econômico ou um equívoco nas decisões políticas. Todo mundo já viveu meses em que o mês não termina, que o dia 31 nunca chega e que é preciso passar semanas segurando a onda, comendo só macarrão com sardinha, deixando de sair pra tomar uma, abrindo mão do cineminha, atrasando o pagamento de conta e traseirando no buzú. Dificuldade financeira todo mundo passa e todos os países também. Seja um império capitalista como os Estados Unidos. Seja uma ilha socialista como Cuba. Seja um país continental como o Brasil.

Mas aí você lê a publicação de março da Forbes, apresentando o patrimônio estimado dos mais ricos do mundo. E vê que os mais novos bilionários do Brasil são o senador Blairo Maggi (PR), a sua mãe Lúcia e seu cunhado Itamar. Juntos, eles somam (de acordo com a Forbes) cerca de 3 bilhões e meio de reais – quase metade do que foi cortado pelo Governo Federal no orçamento da Educação. Blairo Maggi, que já foi governador do Mato Grosso, é o principal nome do agronegócio no país.

Nas eleições de 2014, o PT de Mato Grosso compôs a coligação “Amor à nossa gente” que elegeu para o senado Wellington Fagundes (PR), correligionário de Blairo Maggi.

Em 2014, após ser eleita, Dilma anunciou para o Ministério da Agricultura a ex-deputada do DEM e atualmente no PMDB, Kátia Abreu, uma das lideranças do agronegócio.

De acordo com a Comissão Pastoral da Terra, 1% dos proprietários detém 46% das terras no Brasil. Boa parte delas improdutivas.

Moral da história: apoiar o agronegócio e o latifúndio, em detrimento da agricultura familiar e da reforma agrária, enriquecendo, assim, a família Maggi e seus aliados políticos, é uma escolha política. Cortar cerca de 9 bilhões na Educação, enquanto Blairo, sua mãe e seu cunhado possuem um patrimônio estimado de 3,5 bilhões, é uma consequência econômica.

Saindo do campo e indo pra mídia.

O governo Dilma manteve no seu primeiro mandato o ministro Paulo Bernardo. Desde que assumiu a presidência, Dilma não avançou em nada no processo de democratização da comunicação no Brasil; nunca propôs a regulamentação dos meios de comunicação no país, nem a criação de leis que regulem o mercado midiático. Ao contrário do que ocorre na Argentina, Estados Unidos, Venezuela, Inglaterra, Equador, França, Bolívia e Portugal.

Ainda de acordo com a Forbes, o quinto homem mais rico do Brasil é João Roberto. Em sexto, vem José Roberto. Em sétimo, vem Roberto Irineu. O que todos eles têm em comum: são filhos do finado Roberto Marinho, que era dono do grupo Globo. Juntos, o trio de irmãos Marinho tem um patrimônio estimado de 25 bilhões de reais. Mais que um terço de toda a verba cortada do orçamento do Governo.

Em 2013, as organizações Globo foram denunciadas pela Receita Federal e tiveram que devolver ao Tesouro nacional cerca de 600 milhões de reais, devido à sonegação de impostos. Em 2015, o nome de Roberto Marinho foi divulgado na lista do “Escândalo do HSBC, relacionado a um esquema internacional de lavagem de dinheiro e sonegação de impostos.

Entre 2000-2002 (governo FHC), 2002-2010 (governo Lula), 2010-2012 (governo Dilma), o Governo Federal investiu quase 6 bilhões de verbas publicitárias na TV Globo. Somente em 2015 o governo Dilma anunciou o corte de verbas para a rede Globo.

Ou seja, enriquecer a família Marinho – que hoje 3 pessoas detém 25 bilhões de reais – é uma escolha política. Cortar 25 bilhões do PAC é uma consequência econômica.

E isso só pra citar as famílias Maggi e Marinho. Não vou nem comentar sobre a família Safra, Cutrale, Salles, Camargo Corrêa, Suarez, Macedo…

Tudo bem. As escolhas não são só do governo Dilma. Também é do povo brasileiro, que é conservador. É escolha de boa parte da população ser contra o MST e a reforma agrária e a favor do latifúndio; contra a agricultura familiar e a favor do agronegócio; contra a regulamentação dos meios de comunicação e a favor do oligopólio midiático; contra a reforma política e a favor de Eduardo Cunha, do PMDB, PP, PR, PSD, etc… É escolha da sociedade se importar mais com as panelas do pessoal da varanda do que com a luta dos que não têm varanda e, muitas vezes, nem panela.

Mas, ao adotar um modelo de desenvolvimento tipicamente capitalista, em detrimento de soluções alternativas, mesmo que reformistas, o resultado não poderia ser outro. Capitalismo na veia! Pouquíssimos com muito. Milhares com pouco ou quase nada. Enquanto algumas dezenas de famílias e grupos empresariais comem lagosta e estouram champanhe, milhões de brasileiros e brasileiras pagam a conta.

E tome-lhe macarrão com sardinha.

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