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Cunha, príncipe das trevas, é anti-herói

Cunha, príncipe das trevas, é anti-herói
Cunha, príncipe das trevas, é anti-herói – Crédito: Uol

 

Cunha, príncipe das trevas, é anti-herói

Ele deve ser bom motorista. Na manobra não perde uma. Enquanto a imprensa e os deputados focam uma votação ou um debate acirrado, lá está o Eduardo Cunha, colocando em pauta outra votação à revelia do Brasil. Breno Altman, diretor editorial do Opera Mundi, traça um paralelo sobre a pseudo-heroicidade do presidente da Câmara.

A moda no campo progressista é falar mal de Eduardo Cunha, o presidente da Câmara dos Deputados. Quase sempre na condição de vítima, perante um indômito vilão.

Não tenho dúvidas: ele representa os interesses mais conservadores e reacionários do país. Investigado na Operação Lava Jato, possivelmente sua ascensão política esteja permeada por negociatas.

Sua figura humana me provoca certa aversão, pela combinação entre valores retrógados e o vil cinismo tão próprio daqueles que se colocam a serviço dos endinheirados.

Mas sou obrigado a remar contra a maré e revelar que, ao contrário de muitos, tenho admiração pelo estilo político do maldito. Ele é implacável.

Não se preocupa com a imagem ao defender ideias nas quais acredita. Enfrenta adversários até levá-los à derrota ou à capitulação incondicional. Briga como um rottweiler, resiste como um pugilista com queixo de pedra.

Luta, manobra, transpira e sangra até conquistar os objetivos aos quais se propõe. Ou é derrotado com a certeza de ter ido ao limiar de suas energias para bater quem se põe no caminho

Queria muito que a esquerda tivesse, na linha de frente, quadros dessa estirpe. Muitos dos dirigentes e tribunos do campo progressista estão ficando flácidos, preguiçosos e acomodados.

Vai longe o tempo em que a fração parlamentar do PT, mesmo contando apenas com um pequeno punhado de cadeiras, era majoritariamente formada por guerreiros capazes, em articulação permanente com as ruas, de conquistar direitos constitucionais improváveis ou enfrentar a hegemonia dos privatistas.

Não vou esconder minha melancolia. Apesar de honrosas e escassas exceções, veio se afirmando, no interior da esquerda, perfil de conciliação e bom-mocismo.

Não é processo recente, talvez venha se desenhando há décadas. Tampouco limita-se ao Brasil. Nos últimos quinze anos, porém, avançou celeremente, contaminado por essa clássica enfermidade chamada cretinismo parlamentar.

A esquerda, no passado, queria conquistar respeito diante das massas do povo e impor o medo entre as elites. Agora muitos setores parecem buscar, sofregamente, amor e aceitação. Até dos piores inimigos.

Por essas e outras, Eduardo Cunha também pode ser visto como um anti-herói com quem temos lições a aprender. O homem é feroz e decidido. Antítese da máxima mineira a predicar que “política é a arte do possível”, pela qual pusilanimidade se converte em esperteza.

Jamais será derrotado — nem ele, nem as classes sociais e grupos políticos que representa — com o choro cândido dos que imaginam a luta política como um conciliábulo entre homens e mulheres de diferentes pensamentos.

O príncipe das trevas somente será vencido se a esquerda recuperar a capacidade e a vontade de ser uma força de confronto, disposta a levantar o país contra o campo da reação e do atraso.

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