Blog do Mailson Ramos Esportes

Estadão: como a CBF ‘vendeu’ a seleção

Estadão: como a CBF 'vendeu' a seleção

Estadão: como a CBF ‘vendeu’ a seleção

O contrato entre CBF e empresários deixa claro: o jogador que substituir um “titular” precisa ter o mesmo “valor de marketing’’ do substituído”.

O Estadão revela algo que parece bombástico, embora todos saibamos o que representou a administração do futebol brasileiro pelo senhor Ricardo Teixeira. Agora os dados são mais concretos. A matéria revela algumas situações vexatórias para o futebol brasileiro.

A seleção brasileira virou uma mina de ouro para empresários e CBF. Contratos secretos obtidos pelo Estadão revelam, de forma inédita, como a entidade leiloou a seleção em troca de milhões de dólares em comissões a agentes, cartolas, testas de ferro e empresas em paraísos fiscais, longe do controle da Receita Federal brasileira.

Pelos acordos, a lista de jogadores convocados precisa atender a critérios estabelecidos pelos parceiros comerciais e qualquer substituição precisa ser realizada em “mútuo acordo” entre CBF e empresários. O contrato deixa claro: o jogador que substituir um “titular” precisa ter o mesmo “valor de marketing’’ do substituído”.

As condições fazem parte de minutas de contratos secretos obtidos pelo Estado e que revelam, de forma inédita, como a CBF leiloou a seleção brasileira, em troca de milhões de dólares em comissões a agentes, cartolas, testas de ferro e o envolvimento de empresas em paraísos fiscais, longe do controle da Receita Federal brasileira.

Desde 2006, a CBF mantém um contrato com a companhia ISE para a realização dos amistosos da seleção. O acordo foi mantido em total sigilo por quase dez anos. Documentos obtidos pelo Estadão revelam agora que a ISE é uma empresa de fachada com sede nas Ilhas Cayman. Não tem escritório nem funcionários. É mera Caixa Postal, número 1111, na rua Harbour Drive, em Grand Cayman. A ISE é apenas uma subsidiária do grupo Dallah Al Baraka, um dos maiores conglomerados do Oriente Médio, com 38 mil funcionários pelo mundo.

Em 2011 esse contrato de 2006 foi renovado por dez anos pelo então presidente da CBF, Ricardo Teixeira, em um encontro em Doha, no dia 15 de novembro. Ele seria oficializado no dia 27 de dezembro daquele ano. Entre 2006 e 2012, a ISE sublicenciou a operação para a Kentaro, companhia que passou a implementar cada partida da seleção com base no acordo.

Em 2012, o contrato de operação passou para as mãos da Pitch International, depois de uma negociação com a ISE e a CBF que continua em vigência.

Nos primeiros acordos e emendas entre a CBF e a ISE, os termos não faziam qualquer menção às regras para a convocação de jogadores. Tudo mudaria em 2011. Os aspectos esportivos foram colocados em segundo plano. Trata-se, acima de tudo, de um esquema para explorar a marca da seleção em todos os seus limites, independentemente do resultado em campo ou do significado de uma partida para a preparação do time.

Convocados

Pelo acordo secreto, ficou estipulado que a seleção deveria entrar em campo sempre com seus principais jogadores, sem qualquer possibilidade de testar jovens promessas ou usar amistosos para preparar o grupo olímpico. “A CBF garantirá e assegurará que os jogadores do Time A que estão jogando nas competições oficiais participarão em qualquer e toda partida”, diz o artigo 9.1.

Qualquer violação desse acordo significa pagamento menor de cota. “Se acaso os jogadores de qualquer partida não são os do Time A, a taxa de comparecimento prevista nesse acordo será reduzida em 50%”, estipula o contrato. Por jogo, a CBF sai com US$ 1,05 milhão (R$ 3,14 milhões) se seguir o acordo.

Caso um jogador seja cortado por contusão, por exemplo, a CBF precisa provar com um certificado médico aos empresários da ISE que o atleta não tem condições de jogar. “Qualquer alteração à lista será comunicada por escrito à ISE e confirmada por mútuo acordo. Nesse caso, a CBF fará o possível para substituir com novos jogadores de nível similar, com relação a valor de marketing, habilidades técnicas, reputação.”

Para deixar claro o que significa “Time A”, a ISE alerta que não aceitaria o que ocorreu em novembro de 2011 quando o Brasil foi ao Gabão e depois a Doha para enfrentar o Egito. Na época, o então treinador, Mano Menezes, não contou com Neymar, Ganso, Lucas, Marcelo, Kaká e Leandro Damião, nomes da lista original para os amistosos.

No novo contrato (o que passou a valer em dezembro daquele ano e vai até 2022) a empresa deixou claro que tal situação passaria a ser punida com uma redução em 50% do cachê pago.

Além disso, todos os direitos de transmissão, copyright ou qualquer outro aspecto ficam sob controle total da empresa de fachada registrada nas Ilhas Cayman. Num dos artigos do contrato, fica ainda estipulado que, mesmo que o acordo for suspenso, os direitos de copyright são mantidos sem data para acabar. Qualquer violação significa que a CBF teria de pagar uma multa de US$ 1 milhão.

O contrato ainda prevê que os períodos de preparação da seleção brasileiras para as Copas de 2018 e 2022 também serão de exploração exclusiva da ISE.

O acordo ainda termina com termo bem claro: confidencialidade. “Todos os termos e condições deste acordo serão tratados pelas partes como informações confidenciais e nenhuma das partes os divulgará.